Arquivo | agosto, 2011

Carnaval de Notting Hill

31 ago

Notting Hill é um bairro de Londres bem famoso no mundo, muito por conta do filme “Um lugar chamado Notting Hill”, lançado em 1999, no qual um dono de uma pequena livraria especializada em livros de viagem, Hugh Grant, se depara em sua loja com Anna Scott, super estrela de Hollywood, interpretada por nada menos que Julia Roberts. Seduzida pela vida pacata de um bairro pequeno e charmoso de Londres, Anna se apaixona pelo vendedor de livros e ele vice-versa e o resto todo mundo já sabe…

Portobello Rd

O filme foi filmado mesmo numa livraria de Notting Hill, a The Travel Bookshop, que ouvi dizer que está para fechar. Essa pequena loja atrai bastante turistas, loucos para tirar uma foto em sua fachada. Eu mesma tenho a minha…;)

The Travel Bookshop

Entretanto, tirando essa parte do filme, o bairro é um charme mesmo, localiza-se perto do Holland Park e do Kensington Garden, áreas nobres de Londres. Aos sábados rola a charmosa feirinha na Portobello Road, de antiquidades e roupas vintage, além de frutas, verduras e comidas diversas.

Mas na verdade o que quero falar mesmo é do Carnaval de Notting Hill que ocorre todo ano no último fim de semana de agosto, feriado em Londres. É o maior carnaval da Europa e a segunda maior festa de rua do mundo, perdendo somente para o Rio de Janeiro, segundo o site oficial do evento (será mesmo? Tenho as minhas dúvidas, só no nosso país temos eventos de rua tão grandes, como as festas de São João no interior do Nordeste, o carnaval de Recife e Salvador. Imagina mundo afora?). Bem, como este não é o foco, vamos seguir.

E por que esse carnaval acontece em Notting Hill? A história desse carnaval começa com a vinda de imigrantes caribenhos após o fim da II Guerra Mundial, se localizando no bairro de Notting Hill, formando uma grande comunidade. A tradição do carnaval no Caribe começou em Trinidad, em 1833, para marcar o fim da escravidão. Em Londres, o primeiro carnaval aconteceu em 1964 e desde então acontece durante dois dias (domingo destinado às crianças e segunda aos adultos) durante o bank holiday (feriado) de agosto.

Esse ano estava viajando, mas fui ano passado e achei bem interessante. É uma misturada de tudo. Várias barracas com uma variedade enorme de comidas. Blocos passando, carros alegóricos, DJ’s tocando…

Mas prefiro o nosso! Acho que o carnaval brasileiro é incomparável. De uma forma geral, a gente não assiste a festa, a gente participa da festa. Pelo menos no Rio, em todo canto há um bloco e qualquer um participa da festa, não precisa de ensaio, não precisa conhecer as pessoas, é só seguir o som e ser feliz.

Bem, mas eu sou suspeitíssima para falar de carnaval, pois eu amo demais essa época e me esbaldo nessa folia brasileira desde 2004, exceto 2011 por já estar morando aqui!:(

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Brick lane ব্রিক লেন

22 ago

Então, mais uma vez venho aqui escrever sobre um lugar que, como Camden, eu acho que é a cara de Londres: Brick Lane.  Aos domingos rola uma super feira lá (aliás, são várias) e é um programão para quem quer entender o porquê de Londres ser taxada como uma cidade cosmopolita e “multi-tudo”.

Atualmente, Brick Lane faz parte da área, vamos dizer assim, cool do East End, endereço de jovens artistas que adotaram esta região justamente por conta da sua multiculturalidade e diversidade. Mas nem sempre foi assim. O East End ganhou esse nome por se localizar a leste do Muro de Londres- construído pelos romanos para proteger a então cidade (conhecida como a City).

Porém, foi somente no século 19, com o crescimento populacional londrino, principalmente nessa área, que esse nome passou a significar, pejorativamente, lugar de pobre e imigrante. Estigma que continua até os dias de hoje, vide o projeto das Olimpíadas de 2012, todo feito no East com o intuito de desenvolver a região.

Brick Lane sempre foi destino de imigrantes. Já foi casa dos Huguenotes – protestantes franceses perseguidos pela Reforma-, Irlandeses, Judeus e, no século XX, dos Bengalêses  (É isso mesmo? Quem nasce em Bangladesh é Bengalês?), que chegaram em Londres para trabalhar nas docas. O East era o primeiro porto de escala daqueles vindo de Bengali (base do Império Britânico na Índia), daí a concentração nessa área.

Para se ter uma ideia da loucura que é Brick Lane, a atual Mesquita Jamme Masjid (Brick Lane Great Mosque) já foi Igreja Protestante dos Huguenote, pertenceu a uma sociedade que promovia o cristianismo entre os Judeus, virou Igreja Metodista, depois Sinagoga e hoje é uma Mesquita. Para mim isso traduz bem a mistura de culturas dessa área…

A área é cheia de restaurantes sul asiáticos –  os “Curry Houses”. Para quem gosta de um curry, vale a pena explorar a região. Muitos não vendem bebida alcóolica, porque são gerenciados por muçulmanos, o que não significa que o cliente não possa beber álcool, já que ele pode levar a sua própria bebida de casa, se assim desejado.

Além de abrigar essa grande comunidade de Bangladesh, o que já torna tudo diferente, Brick Lane é hoje casa de jovens artistas, onde se localizam ateliês, brechós e bares moderninhos. As ruas do bairro ganham um charme a mais por conta das muitas intervenções artísticas em suas paredes feitas por street artists, como o Banksy.

Banksy - colocaram um acrílico em torno da intervenção e assinatura dele (lado direito da foto, no alto da placa preta de ferro), para preservá-la. Afinal, agora isso aí vale uma fortuna né?

Há muitos brechós na área, como o famoso Rokit, mas como não tenho paciência para me enfiar em nenhum deles, realmente não conheço bem o esquema.  Mas para quem curte, há um post da Dri Miller com indicações de vários brechós na cidade.

Ainda não fiz uma noitada em Brick Lane, o que é uma pena pois dizem ser bem diferente e animada. Nessa minha pesquisa para escrever esse post, vi várias recomendações positivas sobre o Vibe Bar e o 93 Feet East. Os dois ficam na rua Brick Lane, um em frente ao outro.

Aos domingos, o Vibe Bar tem um beer garden disputado. Fica um DJ fazendo um som ao vivo e, o que eu acho mais sensacional, uns hairstylists famosos fazendo uns cortes de cabelo ao ar livre. Imagina o cenário, DJ discotecando, discos sendo vendidos, gente sentada bebendo cerveja nos bancos, pessoas cortando o cabelo, tudo junto e misturado!!! hahahah…adoro essa loucura londrina!

Cabeleireiro ao ar livre!

Uma outra famosa atração de Brick Lane é a padaria judia Beigel Bake de 1977, aberta diariamente 24 horas. Ela não é exclusiva, na área há vários outros Beigel Shops.

Antes que me esqueça, foi entre Brick Lane e Whitechapel que o famoso serial killer Jack, o estripador, matou suas 11 vítimas (Osborn Street; Flower and Dean Street; Hanbury Street). Uma espécie de mística cerca também a rua Chicksand, pois foi lá que Bram Stocker, escritor do famoso livro Drácula, morou quando retornou da Transilvânia.

Achei esse videozinho, feito pelo Canal Londres, sobre Brick Lane bacaninha:

http://www.canallondres.tv/Canallondres_Seu_Guia_para_Conhecer_Londres__os_Picos_de_Ulisees_Brick_Lane.html

Estações de metrô próximas: Liverpool Street, Aldgate East e Shoreditch.

Riots @ London

10 ago

Não pretendia fazer um post sobre o assunto, até porque foi tão noticiado no Brasil e a repercussão foi tão grande que não sei se poderia contribuir muito com informações, mesmo estando aqui pertinho dos acontecimentos dos últimos 4 dias. Porém, tal evento gerou tantas discussões entre amigos brazucas que moram aqui, que não me contive.

Tem se falado que esses ataques de jovens são fruto de uma juventude vazia e sem nada na mente, que reclama de barriga cheia porque não tem mais acesso ao último Iphone ou qualquer eletrônico do tipo. Sim, o desconforto desse tipo de manifestação recai justamente nesse vazio de reivindicações, afinal, se protesta, se luta por quê? Embora entenda e também fique intrigada com esse vazio ideológico, não consigo acreditar que esse tipo de manifestação jovem tenha ocorrido e se espalhado à toa. Não acho que esses atos de saqueamento aconteceram simplesmente porque muitos jovens estavam de férias e não tinham melhor coisa para fazer. Poderia ter ocorrido numa área, num dia, mas não ter se espalhado pela Inglaterra toda!

Mas então o que está por trás disso? Os países da Europa estão vivendo um empobrecimento que essa geração não conheceu. O atual governo, com suas estratégias de contenção da crise, tem cortado uma série de benefícios, que sim, precisavam ser revistos (não se pode ficar 20 anos vivendo de seguro desemprego!), mas que não deixa de ser um duro golpe no Estado de bem estar social. Os cortes estão ocorrendo em todos os níveis, da saúde a educação, inclusive na área de segurança – a polícia metropolitana sofreu um corte de 543 milhões de libras nesse ano!

Não se pode mensurar agora o quanto esses cortes afetará a longo prazo a vida aqui, mas com certeza a cidade não sairá ilesa. Os contrários aos cortes argumentam que tantos benefícios e garantias é o preço que se paga para se ter uma cidade tranquila e, diante de tal medida, o governo terá que gastar muito mais em segurança e armamento, afinal, quem recebe benefício do governo há 20 anos se reinserirá à sociedade como? Enfim, super polêmico e difícil mesmo, pois na crise o cerco aperta e o governo precisa enxugar os gastos e, nesse caso, o social sofre.

Outra coisa que ouvi foi a defesa de uma polícia armada em Londres, pois se assim fosse, não haveria baderna de tamanha proporção. O que eu não entendo é essa associação entre segurança e armamento. Desde quando uma polícia armada nas ruas resolve o problema da desordem ou impede o crime? Se fosse assim, o Rio seria o paraíso da segurança. Infelizmente, quem mora na cidade vê policiais armados a todo o momento e isso não impede que num sinal a menos de 100 metros ocorra um assalto….

Ouvi também o comentário de que a polícia inglesa é despreparada para situações como essa, já que ela só está acostumada a lidar com bêbados na noite ou, ainda, de que a Inglaterra é um país rico e por isso é fácil a polícia ser desarmada. Oras, será mesmo que a polícia daqui não usa armas para lidar com a população por uma pura coincidência? O que dizer dos muitos países que são ricos, com uma economia forte e não conhecem essa experiência? Prefiro acreditar que Londres é uma das cidades grandes mais segura do mundo justamente por conta desse planejamento, que conjuga uma polícia comunitária e um sistema judiciário eficiente. Ao invés de sair atirando em um bando de jovens, a polícia optou por conter os tumultos de forma a diminuir e muito o número de feridos. No lugar de tiros, prisões e indiciamentos, que já se transformaram em julgamentos…

É claro que por aqui nem tudo são flores, há corrupção, inoperância policial, assaltos, crimes entre gangues, tráfico de drogas, como qualquer outra cidade grande. Mas não posso deixar de achar louvável o modelo de policiamento inglês. De repente estou olhando tudo com o romantismo de quem acabou de chegar e só tem um pouco mais de 1 ano na cidade. Entretanto, a minha experiência com a polícia aqui é excelente. Os policiais que estão na rua não usam armas, eles dão informação, chamam a comunidade para participar das suas atividades e trabalham muito com as lideranças locais. Cada bairro há uma pessoa responsável por ter um contato direto com a polícia, ajudando-a a vigiar a área. Quando ocorre assalto no bairro, eu recebo uma carta da polícia relatando o ocorrido. Vejo propagandas chamando o médico, o dentista, o DJ a ser voluntário remunerado na instituição. Enfim, são exemplos de atuações que tentam ao máximo trabalhar em conjunto com a população, estando na maioria das vezes ao lado dela e não contra. Torço muito por esse modelo de polícia!!!

No artigo do NY Times de ontem, chamado Unarmed Officers on London’s Front Lines , um dado estatístico me impressionou. Parece que em 3 anos, apenas uma pessoa foi baleada e morta por policiais na cidade. É claro que temos que ter cuidado com esses números que nem sempre dizem a verdade, mas mesmo assim é impressionante. Para um guia completo sobre as mortes sob custódia da polícia entre os anos 2000-2010, dêem um olhada no site da ONG INQUEST, que trabalha provendo aconselhamento gratuito para pessoas em luto por conta de experiências com mortes controvérsias e investiga mortes sob custódia da polícia.

Para os jovenzinhos ingleses, termino o post com este grafite do Banksy:

Saatchi Gallery

2 ago

A Saatchi Galery é uma galeria voltada somente para arte contemporânea. Ela é totalmente gratuita – como já mencionei aqui, em Londres há um incentivo enorme à produção cultural, existindo muitos museus, eventos e galerias de arte absolutamente free. A Saatchi Galery existe há 25 anos e surgiu para divulgar a arte contemporânea, lançando artistas desconhecidos tanto para o público em geral, quanto para o mercado de arte. Mesmo sem ser apreciadora, fui lá conferir.

Sempre tive muitas resistências à arte contemporânea, talvez por tentar achar respostas lógicas ou unidade nessa arte tão diversa e livre. O que mais me deixa “chateada” nesse tipo de arte é a falta de um título sequer. Você olha, olha, olha e pensa: Que cargas d’águas esse artista pensou para fazer essa obra? Por que isso é arte? Quem disse que isso é arte? Por que o que eu faço na minha casa não é considerado arte e essa privada no meio da galeria é?

Na verdade, acho que meu problema é que quero sempre achar um sentido nas coisas, sempre demando um texto que me dê alguma pista sobre o que pensar. Daí a bronca quando vejo uma obra sem título (rs!). A minha compreensão está tão ligada a um texto, a alguma explicação, que não consigo sentir a obra por mim mesmo. E como não me conecto, não entendo, não sinto e não gosto.

O interessante e bacana dessa arte é essa tentativa de tirar o espectador do lugar de espectador, de dar conta dessa passividade que acaba nos capturando quando vamos a um museu e assistimos tudo aquilo como algo extraordinário porque alguém um dia disse que assim era. Às vezes vejo a arte contemporânea como uma provocação.

Claro que isso não é o suficiente para eu ser apaixonada por esta arte, pelos motivos que já expliquei acima. Mas acho que muitas vezes ela é pega para Cristo e desvalorizada por essa falta de rigor nos seus limites, “mas pode tudo?”, “qualquer coisa é arte?”. De repente precisaremos analisá-la daqui a 50 anos para conseguir ver alguma unidade e os traços da nossa época e assim valorizá-la, coisa que não conseguimos fazer agora porque estamos no calor dos acontecimentos.

Quem quiser ler mais sobre esse assunto, há um post que eu acho fantástico sobre o tema, chamado Arte é o que você quiser, no blog Dorothea da jornalista Renata Peppl. Vale a pena conferir, pois ela discute a questão com muito mais propriedade do que esta que vos fala.

A estação de metrô mais próxima é a Sloane Square e o endereço:

Duke of York’s HQ
King’s Road
London
SW3 4SQ