Arquivo | fevereiro, 2014

A amamentação em terras estrangeiras

21 fev

Morar em outro país é lidar a todo momento com estranhamentos. Assim que engravidei e procurei o sistema de saúde daqui e comecei o pré-natal, sempre me perguntavam: “Você pretende amamentar?”. Eu achava a pergunta mais sem sentido a ser perguntada e respondia sempre, sem titubear, “Claro!”. Na minha cabeça, isso nunca foi uma opção e, sim, algo óbvio e natural. Pois é, mas aqui é diferente. Amamentar é opção sim e muitas optam por dar fórmula desde a maternidade ou combinar leite de peito com fórmula.

Não amamentar aqui não é nenhum absurdo e não há pressão social para que o faça, embora a política oficial do sistema de saúde é a de incentivar o aleitamento materno. Nas aulinhas do pré-natal, houve uma aula só para falar dos benefícios da amamentação para a mãe e bebê, apelando para a estética (“amamentar emagrece”) e para a economia doméstica (“Não custa nada”). Há, ainda, depois do nascimento, muitos grupos de apoio à amamentação nos centros sociais e postos de saúdes locais.

Segundo dados do NHS (National Health System ), divulgados em 2012, no nascimento, 81% das mães estão amamentando no Reino Unido. No entanto, aos 6 meses, apenas 1% estão amamentando exclusivamente (relatório completo aqui). Resumindo, se vê muito pouco peito para fora nas ruas aqui e a sensação é de que você é a única que amamenta na cidade!

Antes, achava que era o frio, que as mães tiravam o leite na bomba para facilitar e não pegar uma pneumonia na rua. Mas, depois, prestando mais atenção e lendo, vi que há outros motivos para a não amamentação.

Londres tem uma população de 37% de residentes nascidos fora do Reino Unido (Censo de 2011). Ou seja, é  muita gente de todo o mundo, de culturas diversas, que vem para cá sem suporte algum familiar. E, mesmos os britânicos que moram  aqui, muitos não são de Londres, mas de outras partes do Reino Unido. Sendo assim, sem suporte, tendo que trabalhar, cozinhar, lavar, passar, ir ao mercado e se virar em 1000, a mamadeira se torna a opção mais prática. Enquanto se faz mercado, enquanto se anda de ônibus, enquanto se circula pela cidade e leva vento e chuva na cara, é só dar a mamadeira para o bebê no carrinho e a vida continua, porque aqui, desde o nascimento, os bebês estão na rua em todos os lugares. A vida não pára mesmo por conta da chegada de uma criança.

Tem, também, é claro, o desejo da mulher em retornar logo à sua vida e dividir a tarefa da alimentação do bebê com o parceiro ou terceiros para manter a sua independência desde o começo. E isso não é visto como nenhum absurdo. Enfim, acho que cada um sabe o que funciona melhor em sua dinâmica familiar!

Mas acho que o que mais me chocou foi a constatação de que há uma vergonha de amamentar em público e que isso influencia na não amamentação. Recebi vários folhetos do sistema de saúde “Ninguém pode te discriminar por amamentar em público” e li reportagens e campanhas com relatos de mães que se sentiam tão constrangidas de amamentar em público, que iam para o banheiro!

Super concordo com as campanhas de mães que se recusam a ter seus seios, que amamentam um filho, sexualizados a ponto tal de constranger as pessoas ao redor. Acho muita hipocrisia, ainda mais nas sociedades ocidentais, onde a nudez é estampada em nossa cara  todos os dias…

Eu, particularmente, banquei a amamentação em público. Não vou dizer que não me sinto constrangida, mas respiro fundo e banco, pois queria muito amamentar exclusivamente. Mas vi a diferença quando estive no Brasil, onde se amamenta muito mais livremente e sem paranóias. Aqui, sempre busco, na medida do possível, estar em áreas mais “baby friendly”. Porém, como amamentar no seio é muito imprevisível, já tive que dar de mama em locais nada amigáveis, como no metrô. Foi estranho, não achei naaada legal, mas sobrevivi! Aliás, venho sobrevivendo…rs…

Na verdade, o que me deu coragem, foi ver que há mães sim amamentando aqui, mas é muito mais discreto. Quando o Tom começou a natação, com 1 mês e meio, vi que haviam várias mães amamentando lá, o que deu um alívio do tipo “que bom, não sou a única!”. E, depois, frequentando as atividades para bebês no centro social do meu bairro e observando mais ao meu redor, vejo várias mães fazendo o mesmo, o que dá um conforto.

Aqui, se usa muito uma espécie de veste para a amamentação, como essa aqui, o que é excelente para se ter mais privacidade. Eu acabei não comprando, mas acho que me facilitaria a vida, de repente.

Cartaz apoiando a amamentação num café. Só em um cartaz avisando que pode, já demonstra o quão não é natural amamentar em espaços públicos

Cartaz no café do Holland Park apoiando a amamentação. Só em ter um cartaz avisando que pode, já demonstra o quão não é natural amamentar em espaços públicos!

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Alguns links sobre a questão da vergonha e o amamentar:

– vídeo que se tornou viral da poeta britânica Hollie McNish: 

– texto comentando a questão e mostrando outros casos: http://www.huffingtonpost.ca/2013/07/05/hollie-mcnish-breastfeeding_n_3552062.html#slide=719508

Viajando de avião sozinha com um bebê

6 fev

Bem, não sou nenhuma especialista em viagens. Mas, como a necessidade faz o homem, tive que voltar de avião sozinha do Brasil para Londres com um bebê de 5 meses. E, morando fora, com certeza essa não será a primeira e nem última vez. Então, compartilho aqui a experiência porque haja logística! Rs…

Na ida para o Brasil, fui com o maridão. Então, fui mais desorganizada e relaxada, pois sabia que ia ter ajuda. O bom é que tive a oportunidade de ver o que de fato precisava para a volta. E, de cara, ficou evidente que eu tinha que eliminar coisas, ter as mãos livres e uma organização espetacular.

Então vamos lá. Eu voei de TAM. Nessa companhia, você tem que reservar o bercinho com antecedência e pagá-lo na hora do check-in (cerca de 80 dólares). Não há muitos disponíveis, dependendo da aeronave, somente dois. Na ida, bobeamos, e quando ligamos para fazer a reserva, já não tinha nenhum disponível. Não fez muita diferença, pois eu revezei o colo com o Felipe, para comer, ir ao banheiro e foi relativamente tranquilo. Mas, para voltar sozinha, o bercinho era fundamental por algumas razões. Quando você paga pelo berço, você fica naquelas cadeiras da frente, com mais espaço para fazer aquela baguncinha, já que estará com mais tralhas do que o habitual. Além disso, quando o Tom dormia, era o momento mágico para eu me esticar, comer algo e ir ao banheiro rapidinho.

O bercinho da TAM é até 11kg. Se o seu bebê já tiver mais do que isso, vai ter que ir no colo mesmo.

Outra coisa que fez muita diferença foi a organização. Na ida, eu fui com muita coisa desnecessária, por exemplo, com dois casacos que viraram peso e tralha para carregar depois. Na volta, optei por um único caso quente e só. Além disso, eliminei tudo de uso pessoal (até escova de dente eu usei aquelas que vem no kit da TAM – mas nem todas cias tem escova e pasta de dente no kit).

Bem, fui com uma mochila e uma mala de mão. Na mala de mão, coloquei tudo que o Tom poderia precisar extra. Duas mantas, algumas mudas de roupas, fraldas descartáveis, fraldas de pano, meu laptop e câmera. E uma blusa para mim caso houvesse um mega acidente. Essa mala eu coloquei em cima e não precisei pegá-la, era só para alguma necessidade.

Na mochila, que ficou comigo embaixo, deixei tudo que precisava usar durante o voo. Uma pastinha de documentos, uma manta para o bercinho e um saquinho com o kit banheiro. Nessa saquinho de pano, coloquei um trocador descartável, necessaire com fraldas descartáveis, uma muda de roupa e fralda velha. Esse era o saquinho “anti-bomba”, para o caso de um cocô explosivo…rs!

E não deu outra. No meio da viagem, Tom fez uma bomba que sujou as suas costas inteiras. E o trocar o baby no banheiro apertado daquele foi uma missão. Mas eu pequei o saco anti-bomba e sobrevivi. Esse saco tinha alça e o prendi na porta do banheiro e fui tirando o que precisava, afinal, precisava de mãos. Usei a fralda velha para tirar o excesso e depois a joguei fora. O trocador descartável foi uma mãe, pois ele é absorvente, me ajudou também a conter o excesso e depois o descartei. A roupa suja coloquei no saco plástico onde estava a limpa e no fim tudo deu certo.

Ah, e viajei com ele no canguru, despachei o carrinho. Acho que fiz uma boa escolha. O embarque foi bem rápido e quase não esperei com ele no colo.

Quando ele estava acordado e precisei ir ao banheiro, fui com ele no canguru. Achei mais prático do que chamar a comissária e pedir para ela ficar com o bebê para mim. Mas sempre há essa opção, no desespero!

E ajuda é que não faltará. É impressionante como as pessoas foram solidárias. Nem precisava pedir, sempre havia alguém para oferecer uma ajuda muito bem vinda! Quando estamos acompanhado não nos ligamos nisso, mas basta estarmos sozinhos para vermos como a ajuda do outro é fundamental e ela vem de bom grado de muitas direções.

Como o Tom mama exclusivamente no peito, não tive estresse algum parar transportar a comida dele. Mas é bom se informar sobre as regras do aeroporto antes de viajar para não correr o risco de perder a comida do seu bebê. Há muitos blogs hoje em dia de mãe viajantes, como Viajando Com os Pimpolhos e Drieverywhere. Pesquisem lá que, certamente, acharão dicas sobre alimentação dos bebês em aeroportos.

Finalizando, não dá para se enganar, será muito cansativo, não há outro jeito, porém dá para sobreviver! Boa sorte para aquelas que se aventurarem!!! =)

Informações sobre a reserva do berço na TAM aqui.

Aeroporto