Riots @ London

10 ago

Não pretendia fazer um post sobre o assunto, até porque foi tão noticiado no Brasil e a repercussão foi tão grande que não sei se poderia contribuir muito com informações, mesmo estando aqui pertinho dos acontecimentos dos últimos 4 dias. Porém, tal evento gerou tantas discussões entre amigos brazucas que moram aqui, que não me contive.

Tem se falado que esses ataques de jovens são fruto de uma juventude vazia e sem nada na mente, que reclama de barriga cheia porque não tem mais acesso ao último Iphone ou qualquer eletrônico do tipo. Sim, o desconforto desse tipo de manifestação recai justamente nesse vazio de reivindicações, afinal, se protesta, se luta por quê? Embora entenda e também fique intrigada com esse vazio ideológico, não consigo acreditar que esse tipo de manifestação jovem tenha ocorrido e se espalhado à toa. Não acho que esses atos de saqueamento aconteceram simplesmente porque muitos jovens estavam de férias e não tinham melhor coisa para fazer. Poderia ter ocorrido numa área, num dia, mas não ter se espalhado pela Inglaterra toda!

Mas então o que está por trás disso? Os países da Europa estão vivendo um empobrecimento que essa geração não conheceu. O atual governo, com suas estratégias de contenção da crise, tem cortado uma série de benefícios, que sim, precisavam ser revistos (não se pode ficar 20 anos vivendo de seguro desemprego!), mas que não deixa de ser um duro golpe no Estado de bem estar social. Os cortes estão ocorrendo em todos os níveis, da saúde a educação, inclusive na área de segurança – a polícia metropolitana sofreu um corte de 543 milhões de libras nesse ano!

Não se pode mensurar agora o quanto esses cortes afetará a longo prazo a vida aqui, mas com certeza a cidade não sairá ilesa. Os contrários aos cortes argumentam que tantos benefícios e garantias é o preço que se paga para se ter uma cidade tranquila e, diante de tal medida, o governo terá que gastar muito mais em segurança e armamento, afinal, quem recebe benefício do governo há 20 anos se reinserirá à sociedade como? Enfim, super polêmico e difícil mesmo, pois na crise o cerco aperta e o governo precisa enxugar os gastos e, nesse caso, o social sofre.

Outra coisa que ouvi foi a defesa de uma polícia armada em Londres, pois se assim fosse, não haveria baderna de tamanha proporção. O que eu não entendo é essa associação entre segurança e armamento. Desde quando uma polícia armada nas ruas resolve o problema da desordem ou impede o crime? Se fosse assim, o Rio seria o paraíso da segurança. Infelizmente, quem mora na cidade vê policiais armados a todo o momento e isso não impede que num sinal a menos de 100 metros ocorra um assalto….

Ouvi também o comentário de que a polícia inglesa é despreparada para situações como essa, já que ela só está acostumada a lidar com bêbados na noite ou, ainda, de que a Inglaterra é um país rico e por isso é fácil a polícia ser desarmada. Oras, será mesmo que a polícia daqui não usa armas para lidar com a população por uma pura coincidência? O que dizer dos muitos países que são ricos, com uma economia forte e não conhecem essa experiência? Prefiro acreditar que Londres é uma das cidades grandes mais segura do mundo justamente por conta desse planejamento, que conjuga uma polícia comunitária e um sistema judiciário eficiente. Ao invés de sair atirando em um bando de jovens, a polícia optou por conter os tumultos de forma a diminuir e muito o número de feridos. No lugar de tiros, prisões e indiciamentos, que já se transformaram em julgamentos…

É claro que por aqui nem tudo são flores, há corrupção, inoperância policial, assaltos, crimes entre gangues, tráfico de drogas, como qualquer outra cidade grande. Mas não posso deixar de achar louvável o modelo de policiamento inglês. De repente estou olhando tudo com o romantismo de quem acabou de chegar e só tem um pouco mais de 1 ano na cidade. Entretanto, a minha experiência com a polícia aqui é excelente. Os policiais que estão na rua não usam armas, eles dão informação, chamam a comunidade para participar das suas atividades e trabalham muito com as lideranças locais. Cada bairro há uma pessoa responsável por ter um contato direto com a polícia, ajudando-a a vigiar a área. Quando ocorre assalto no bairro, eu recebo uma carta da polícia relatando o ocorrido. Vejo propagandas chamando o médico, o dentista, o DJ a ser voluntário remunerado na instituição. Enfim, são exemplos de atuações que tentam ao máximo trabalhar em conjunto com a população, estando na maioria das vezes ao lado dela e não contra. Torço muito por esse modelo de polícia!!!

No artigo do NY Times de ontem, chamado Unarmed Officers on London’s Front Lines , um dado estatístico me impressionou. Parece que em 3 anos, apenas uma pessoa foi baleada e morta por policiais na cidade. É claro que temos que ter cuidado com esses números que nem sempre dizem a verdade, mas mesmo assim é impressionante. Para um guia completo sobre as mortes sob custódia da polícia entre os anos 2000-2010, dêem um olhada no site da ONG INQUEST, que trabalha provendo aconselhamento gratuito para pessoas em luto por conta de experiências com mortes controvérsias e investiga mortes sob custódia da polícia.

Para os jovenzinhos ingleses, termino o post com este grafite do Banksy:

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3 Respostas to “Riots @ London”

  1. Clarissa agosto 10, 2011 às 9:18 pm #

    linda! falou e disse.

  2. Cristal agosto 12, 2011 às 3:49 pm #

    Rhani, bom ter notícias de vocês aí, próximos da fonte de todos os acontecimentos. Por aqui, vi essa entrevista que achei bem interessante http://www.youtube.com/watch?v=HI1YSPHVeIA&feature=share

    • desconstruindorhani agosto 12, 2011 às 10:55 pm #

      Adorei Cris! Se tivesse visto antes, fazia uma referência. Gostei principalmente porque o Sociólogo não deu a resposta esperada pelos jornalistas…

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