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A amamentação em terras estrangeiras

21 fev

Morar em outro país é lidar a todo momento com estranhamentos. Assim que engravidei e procurei o sistema de saúde daqui e comecei o pré-natal, sempre me perguntavam: “Você pretende amamentar?”. Eu achava a pergunta mais sem sentido a ser perguntada e respondia sempre, sem titubear, “Claro!”. Na minha cabeça, isso nunca foi uma opção e, sim, algo óbvio e natural. Pois é, mas aqui é diferente. Amamentar é opção sim e muitas optam por dar fórmula desde a maternidade ou combinar leite de peito com fórmula.

Não amamentar aqui não é nenhum absurdo e não há pressão social para que o faça, embora a política oficial do sistema de saúde é a de incentivar o aleitamento materno. Nas aulinhas do pré-natal, houve uma aula só para falar dos benefícios da amamentação para a mãe e bebê, apelando para a estética (“amamentar emagrece”) e para a economia doméstica (“Não custa nada”). Há, ainda, depois do nascimento, muitos grupos de apoio à amamentação nos centros sociais e postos de saúdes locais.

Segundo dados do NHS (National Health System ), divulgados em 2012, no nascimento, 81% das mães estão amamentando no Reino Unido. No entanto, aos 6 meses, apenas 1% estão amamentando exclusivamente (relatório completo aqui). Resumindo, se vê muito pouco peito para fora nas ruas aqui e a sensação é de que você é a única que amamenta na cidade!

Antes, achava que era o frio, que as mães tiravam o leite na bomba para facilitar e não pegar uma pneumonia na rua. Mas, depois, prestando mais atenção e lendo, vi que há outros motivos para a não amamentação.

Londres tem uma população de 37% de residentes nascidos fora do Reino Unido (Censo de 2011). Ou seja, é  muita gente de todo o mundo, de culturas diversas, que vem para cá sem suporte algum familiar. E, mesmos os britânicos que moram  aqui, muitos não são de Londres, mas de outras partes do Reino Unido. Sendo assim, sem suporte, tendo que trabalhar, cozinhar, lavar, passar, ir ao mercado e se virar em 1000, a mamadeira se torna a opção mais prática. Enquanto se faz mercado, enquanto se anda de ônibus, enquanto se circula pela cidade e leva vento e chuva na cara, é só dar a mamadeira para o bebê no carrinho e a vida continua, porque aqui, desde o nascimento, os bebês estão na rua em todos os lugares. A vida não pára mesmo por conta da chegada de uma criança.

Tem, também, é claro, o desejo da mulher em retornar logo à sua vida e dividir a tarefa da alimentação do bebê com o parceiro ou terceiros para manter a sua independência desde o começo. E isso não é visto como nenhum absurdo. Enfim, acho que cada um sabe o que funciona melhor em sua dinâmica familiar!

Mas acho que o que mais me chocou foi a constatação de que há uma vergonha de amamentar em público e que isso influencia na não amamentação. Recebi vários folhetos do sistema de saúde “Ninguém pode te discriminar por amamentar em público” e li reportagens e campanhas com relatos de mães que se sentiam tão constrangidas de amamentar em público, que iam para o banheiro!

Super concordo com as campanhas de mães que se recusam a ter seus seios, que amamentam um filho, sexualizados a ponto tal de constranger as pessoas ao redor. Acho muita hipocrisia, ainda mais nas sociedades ocidentais, onde a nudez é estampada em nossa cara  todos os dias…

Eu, particularmente, banquei a amamentação em público. Não vou dizer que não me sinto constrangida, mas respiro fundo e banco, pois queria muito amamentar exclusivamente. Mas vi a diferença quando estive no Brasil, onde se amamenta muito mais livremente e sem paranóias. Aqui, sempre busco, na medida do possível, estar em áreas mais “baby friendly”. Porém, como amamentar no seio é muito imprevisível, já tive que dar de mama em locais nada amigáveis, como no metrô. Foi estranho, não achei naaada legal, mas sobrevivi! Aliás, venho sobrevivendo…rs…

Na verdade, o que me deu coragem, foi ver que há mães sim amamentando aqui, mas é muito mais discreto. Quando o Tom começou a natação, com 1 mês e meio, vi que haviam várias mães amamentando lá, o que deu um alívio do tipo “que bom, não sou a única!”. E, depois, frequentando as atividades para bebês no centro social do meu bairro e observando mais ao meu redor, vejo várias mães fazendo o mesmo, o que dá um conforto.

Aqui, se usa muito uma espécie de veste para a amamentação, como essa aqui, o que é excelente para se ter mais privacidade. Eu acabei não comprando, mas acho que me facilitaria a vida, de repente.

Cartaz apoiando a amamentação num café. Só em um cartaz avisando que pode, já demonstra o quão não é natural amamentar em espaços públicos

Cartaz no café do Holland Park apoiando a amamentação. Só em ter um cartaz avisando que pode, já demonstra o quão não é natural amamentar em espaços públicos!

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Alguns links sobre a questão da vergonha e o amamentar:

– vídeo que se tornou viral da poeta britânica Hollie McNish: 

– texto comentando a questão e mostrando outros casos: http://www.huffingtonpost.ca/2013/07/05/hollie-mcnish-breastfeeding_n_3552062.html#slide=719508

O pré-natal no NHS: as aulas

15 jul

No mês de junho, participamos das aulas de pré-natal oferecidas pelo hospital onde estou fazendo o meu acompanhamento. Confesso que no início achei que seriam aquelas aulas para os pais ficarem amigos ou para ensinar a trocar fraldas ou a dar banho, cheias de blá blá blá. Nada contra, mas não estava muito animada não.

Mas práticos como são, no primeiro dia eles já avisaram que essas coisas a gente ia esquecer tudo e só ia aprender na prática e, por isso, iam logo direto aos pontos essenciais para podermos escolher o nosso parto e estar a par sobre como proceder no grande dia e depois também.

As aulas eram às terças-feiras no meio da tarde e me surpreendeu a quantidade de parceiros presentes. Quase todas as futuras mães estavam com seus companheiros, o que é bem legal, pois eles são atores importantes antes, durante e depois do parto e também receberam dicas sobre qual o seu papel nesse processo.

Enfim, a primeira aula foi sobre o reconhecimento dos sinais do trabalho de parto. Aqui você ouve muitas histórias de brasileiros chocados porque foram para o hospital e os mandaram retornar para casa, não só uma, mas duas vezes. E eles disseram que mandam voltar mesmo! Na verdade, o que eles acreditam é que você passando o primeiro estágio do parto em casa é muito mais confortável para a mãe. Eles recomendam ver um filme, almoçar, tomar um banho, dar uma volta e não se desesperar e sair correndo para o hospital, pois o processo é demorado mesmo e ficar numa cama, preso num hospital só bloqueará o desenvolvimento do trabalho de parto. Há exceções, é claro, se houver sangramento, se a bolsa estourar, aí sim tem que ir para o hospital direto. Caso contrário, eles recomendam ir para o hospital só quando as contrações tiverem de 3-4 minutos, durando 1 minuto!

Fizemos um tour pela maternidade e ela é separada por setores. Há a triagem, para avaliar quem já está na hora de ir para um quarto para começar o acompanhamento do trabalho de parto. E, caso esteja preparada, há três alas para seguir. Uma chamada Birth Centre, que é aquela para as mães que querem tentar parto natural, sem epidural. Os quartos são providos de piscina, banheira, aromoterapia, doulas e são as midwives (parteiras) que ficam o tempo inteiro acompanhando o processo. A outra ala é chamada Labour Ward, para aquelas mães que querem tomar a epidural e, portanto, requer uma presença médica. Mas, mesmo assim, as midwives estão presentes acompanhando todo o processo. E o centro cirúrgico, para os casos de cesária agendada ou de emergência, totalmente “médico”.

Eles disseram que depois que você vai para o quarto, demora, mais ou menos, em média, 12 horas até o bebê nascer. Pode ser que seja mais 6 ou 18 horas, não é regra. Bem, o bebê fica com você o tempo todo, a não ser que ele precise de ir para a UTI. Ele nasce, vai para o seu peito e depois eles cortam o cordão. Aí você fica no quarto individual mais 1 hora, para tomar um banho, e depois é transferida para a enfermaria, onde todas as outras mães estão com seus parceiros e bebês. Se o parto for normal e sem complicações, 6 horas depois você já pode ir embora (cesária é diferente, fica mais tempo).

Não tem aquela coisa que tem no Brasil, de um vidro onde as pessoas veem o bebê. Eles recomendam as famílias esperarem em casa. Visitamos o local e realmente não há condições para visitas. É tudo muito pre-programado para funcionar para todos e não há espaço para hotelaria, visitas e confusão no hospital. A ala comunitária estava cheia e confusa por si só, com as mães, os pais e os bebês. Imagina um monte de visitante lá??? (Se tiver que ficar mais tempo no hospital, por conta de alguma complicação, pode ter visitas, mas é limitado também!)

A segunda aula foi sobre os anestésicos que o hospital dispõe e os prós e contras de cada um deles. Esse tópico é super importante para as mães saberem quando podem pedir certos anestésicos e o que estão pedindo. Eles não recomendam de antemão nada, dizem que as experiências são muito pessoais e isso é uma escolha nossa mesmo. Eles dizem que na hora eles podem recomendar um anestésico ou outro, se verem que a  grávida está num nível de tensão tão grande que não deixa o parto fluir.

A terceira aula foi sobre as complicações. Falaram, principalmente, da cesária, que aqui é vista como um caso extremo e às vezes é renegada por algumas mães, que sofrem por ter que fazê-la. Embora eles digam para planejar o seu dia e que o normal é que o bebê venha naturalmente, pois somos programadas para isso, temos que estar aberta para possíveis imprevistos e complicações e aceitar que durante o dia as coisas não sairão como sonhado e planejado.

Aqui eles esperam até a 42 semana. Na 41 semana, eles planejam a indução e começam a fazê-la as poucos, ao longo da semana. O último recurso é a ocitocina, processo iniciado na 41 semana e 5 dias. Eles dizem que tentam outros métodos antes, pois a ocitocina é muito agressiva e dolorosa, já que promove contrações artificiais. Fiquei surpresa quando eles falaram que cordão enrolado no pescoço não é indicação de cesária, pode estar até com duas voltas, que não impede o bebê de vir naturalmente. Sempre achei que não podia…

A última aula foi sobre amamentação, um ponto problemático aqui na Inglaterra. Aqui muitas mães escolhem de cara não amamentar ou não amamentam exclusivamente nos primeiros 6 meses. Eu sempre fico chocada quando, no sistema de saúde, me perguntam se pretendo amamentar. Na minha cabeça, não havia escolha, sempre achei uma pergunta óbvia, mas aqui não é. Alguns fatores estão associados a isso; primeiro, há uma vergonha de amamentar em público, várias mães se sentem constrangidas e amamentam escondido no banheiro e, segundo, pelo menos em Londres, por conta da vida mais prática e solitária dos moradores da cidade. Muitas mães tem filhos aqui sem suporte familiar algum, só do parceiro, pois as famílias moram do outro lado do mundo ou em outras cidade da Inglaterra. E tendo, desde a primeira semana, que cozinhar, lavar, passar e fazer mercado com um bebê recém-nascido, acaba-se optando pela praticidade e as fórmulas, já que aqui também não é comum se ter empregadas domésticas…

Nesse dia foi só para ensinar a forma correta de se amamentar, o que fazer se empedrar, como retirar o leite e o tanto de benefício para a mãe e bebê, tudo para estimular as mães a aderirem. Fomos informadas, que depois que saírmos do hospital, passaremos a receber visitas em casa de uma midwife comunitária ou de um health visitor (agente de saúde),  que acompanharão o crescimento do bebê, a amamentação e qualquer outra questão que envolva o cuidado dele nos primeiros meses (não sei a frequência e duração dessas visitas ainda…).

Finalizando, eu recomendo quem é de fora, e não está familiarizado com o sistema de saúde daqui, a participar dessas aulas. Para mim, foi fundamental saber exatamente como proceder e o que me espera. Informação não faltou!

Saímos de lá confiantes, eles passam segurança e encaram com muita naturalidade o parto. Numa das aulas, falaram “Gente, é o dia do nascimento do seu filho! Que dia importante! Se quiserem tomar no café da manhã um bolo com champanhe, fiquem à vontade. Abram um vinho no almoço, tomem uma taça, relaxem e celebrem! Algumas de vocês vão tomar drogas muito mais pesadas, então nesse dia tá tudo liberado, esqueçam as restrições dos 9 meses!”…hahahah…Felipe e eu ficamos imaginando a cena, eu com contração, pedindo para ele abrir um vinho e os nossos pais chocados achando que ficamos malucos de vez…hahaha!

Bem, na teoria tá tudo resolvido, agora é esperar o grande dia e saber se tudo vai ocorrer como o planejado ou será um caos total e o próximo post será para esculhambar o sistema público de saúde inglês…hahaha.

Último mês, aí vamos nós!!!

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Obs:

1) Uma informação importante é checar quais companhias de táxi levam mulheres em trabalho de parto para o hospital. Eles pediram para gente ligar antes e se certificar, pois algumas se recusam.

2) Repasso aqui a minha experiência de pré-natal no hospital onde faço acompanhamento; como as escolas públicas daqui, há boas e ruins, assim como hospitais. Então, de forma alguma, pretendo generalizar nada e dizer que tudo é perfeito na Inglaterra e tudo funciona aqui…

pré-natal

E você, ama o seu trabalho?

20 jul

Achei esse vídeo bem interessante sobre as diferentes gerações e suas respectivas relações com o trabalho.  A edição é muito boa e a seleção musical também, o que torna o vídeo leve e fácil de ser compreendido. O final é apelativo, mas mesmo assim não tira o mérito e proposta do vídeo, que, ao meu ver, é inspirar!

<p><a href=”http://vimeo.com/44130258″>All work and all play (legendado)</a> from <a href=”http://vimeo.com/user5169819″>Box1824</a&gt; on <a href=”http://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

“Londres Assim”

19 jul

A minha irmã acabou de me enviar um link de uma reportagem que narrava que um americano teria sido preso por usar o “modelito Borat” nos EUA . Ela me enviou esse link por dois motivos. Primeiro, o meu cunhado é um super fã do Sacha Baron Cohen, principalmente no papel do Borat. Segundo, assim que cheguei aqui, fui ver um jogo de Rugby em Wembley e lá me deparei com essa cena:

Wembley, 2010

E é claro que me espantei com tamanha ousadia de entrar num estádio assim, à la Borat. Fiquei imaginando como este sujeito sobreviveria à entrada do Maracanã num dia de clássico!!!!rs!

O engraçado é que essa semana me deparei com um vídeo que falava justamente sobre a liberdade em Londres. Era um trecho da série “Londres Assim”, atualmente exibida aos domingos, 23h, no canal GNT.

Nesse link, um trecho do vídeo, no qual o Gilberto Gil aparece dando um depoimento sobre essa temática, pode ser acessado. No site, há outros pequenos vídeos, mas não consegui acessar nenhum episódio completo. Uma pena, pois parecem deliciosos!

A odisséia…

5 jun

Chegar ao Brasil foi uma verdadeira saga. Uma jornada prevista para durar 15 horas, durou 37! Nesse tempo, de um tudo aconteceu! Correria dentro do aeroporto, filas absurdas e confusão na segurança do aeroporto de Paris, perda da conexão, barraco no balcão de atendimento da Air France, descaso, estresse, espera de mais de 12 horas para embarcar novamente, calor, pouso de emergência em Campinas, neblina, espera sem fim…

Enfim, poderia detalhar aqui tudo de absurdo e surreal que ocorreu nessa viagem, mas o que quero falar mesmo é do brasileiro.

O cenário vocês já conhecem, várias pessoas indignadas no balcão da Air France por conta de todo o ocorrido. Ninguém se conhecia, cada um estava vindo de um lugar diferente, Barcelona, Roma, Londres, Edinburgo….o de comum, a brasilidade, o cansaço e o caos.

E então, diante da falta do que fazer, todos se encaminharam para um restaurante/bar do aeroporto para comer algo. E assim ficamos por 12 horas tagarelando sem parar. Nesse tempo, viagens foram compartilhadas, experiências trocadas, risadas profundas dadas, promessa de viagem conjunta, jantares marcados na casa de uns, sacaneações, promessa de “noivado” (rs!), cerveja(s) e muita solidariedade!

Alguém de fora poderia jurar que estávamos numa escursão e nos conhecíamos há anos, diante do animado papo sem fim. No fim, todos estavam utilizando internet do outro, usando telefone, pedindo dinheiro para a vaquinha da cerveja, tomando conta de malas e rindo muito de tudo…

E é isso que não tem igual. Nosso povo tem uma capacidade de se tornar amigos num instante de segundo. Muitos vão argumentar de que isso é uma amizade falsa, que provavelmente nunca mais nos veremos e muito menos nos falaremos. Mas e daí? Acho que a intensidade com que estamos na relação, o calor humano, a afetividade, a solidariedade e a união em momentos de drama é impagável.

Depois de dois anos e meio morando fora, acho que hoje consigo ter um olhar externo sobre nós mesmos (ou será romantizado?). E o que fica visível para mim quando lido com brasileiros, ou quando estou no Brasil, é esse humor que temos diante das muitas situações adversas; tudo pode estar uma droga, mas ainda assim conservamos um sorriso no rosto! Não sei, fico bem encantada com essa coisa do brasileiro “tirar água de pedra”, “de rir da própria desgraça” e com essa potência e intensidade das nossas relações interpessoais.

E, isso, mermão, não é pouca coisa não!!!

E lá se vai 1 ano…

16 maio

Hoje faz 1 ano que esse blog existe. O engraçado é que eu mesma não acreditava que conseguiria escrever tanta coisa aqui. Pensei que seria algo “fogo de palha” e que logo, logo o abandonaria. Mas eis que estou aqui, atolada que só, mas me desdobrando para escrever nesse espaço com certa frequencia.

Ainda não descobri o propósito desse blog e muito  menos quem o  lê e por que lê. Embora eu faça um esforço para postar coisas de interesse público, sei que caio também no pessoal, deixando escapar uma homenagem aqui e acolá ou um sentimento  saudosista vez por outra.

Mas acho que o próprio formato de blog é  convidativo à parcialidade, afinal, é escrito em primeira pessoa e fica muito difícil fugir da experiência pessoal. Aliás, é justamente por esse motivo que gosto de ler blogs, pois consigo ver as pessoas, o que elas pensam, as suas experiências com viagens, pessoas, com as diferentes fases da vida, com a sociedade. Acho mais transparente, já que desde o começo sabemos de qual lugar aquele escritor está partindo. Diferente do texto jornalístico que, em nome da tal falada imparcialidade, às vezes fica difícil de identificar as verdadeiras intenções do autor ao escrever determinada matéria (o pior é que muitas vezes consumimos aquilo como se realmente fosse algo neutro, quando na verdade não é!!!)

Por esses motivos e outros, tenho gostado tanto de escrever aqui. Esse, afinal, é um espaço meu, onde posso escrever livremente, sem muitas amarras, já que não é um blog profissional e, portanto, posso me dar o direito de postar sem revisão, cometer erros de português e pontuação sem muito dó, afinal, o objetivo maior é comunicar. Além disso, aqui não preciso referenciar nada, parte que mais amo!!! Desde 2006 estou envolvida com pesquisa acadêmica, fui bolsista CNPq, participei de dois grandes projetos de pesquisa, o que me rendeu artigos, congressos, relatórios científicos, etc. Hoje estou no mestrado, nas mesmas condições, mas um pouquinho pior, pois tenho que escrever em inglês, o que me toma horas e horas, fazendo com que a minha produção caia pela metade!!!  E quem é do mundo acadêmico sabe o quão chato é escrever academicamente. A escrita é muito rígida, fechada, com pouco espaço para a invenção. TUDO precisa ser referenciado, citado, justificado e explicado…ufa! Então, prazer maior do que escrever sem compromisso não há!

Entretanto, nem tudos são flores e a minha relação com esse espaço aqui é conflituosa. Realmente me pergunto todos os dias o porquê dessa minha necessidade de compartilhar o meu cotidiano com tantos desconhecidos, já que uma vez que tá na rede, não se tem mais controle algum. O problema que o conteúdo que está aqui exposto é a minha história, é a minha imagem, a minha visão de mundo que não quero impor a ninguém e muito menos normatizar nada…

Enfim, mas cheguei a algumas conclusões. Acho que a principal é a minha necessidade de não perder contato com o Brasil. Acho que tenho medo de me tornar aquelas pessoas que saíram do Brasil e nunca mais ninguém soube delas. Acho que o blog é uma tentativa de manter vínculos, compartilhar experiências, quase um pedido de “não esqueçam de mim”, “olha o que eu estou fazendo”…

Resumindo, na impossibilidade de um encontro no real, eu me encontro aqui no virtual com tantos queridos, com o meu país, com a minha língua e comigo mesma, que na medida em que escreve tenta dar conta, por um lado, da constante falta, ausência e saudade e, por outro, do encantamento e surpresa diante de um mundo novo, que na verdade é velho e por isso mesmo tão interessante aos meus olhos!

Tempo Rei…

5 mar

Hoje fazem dois anos que chegamos aqui, com quatro malas na mão, sem casa, sem passagem de volta e com sonhos do tamanho do mundo…poderia dizer que “passou num piscar de olhos” ou que “parece que foi ontem”, mas eu mesma fico confusa olhando para trás e vendo o tanto de coisas que aconteceram, se realmente esse tempo passou na velocidade de um piscar de olhos…

Esse tempo danado está sempre nos pregando peça. Os momentos que queremos eternizar, ele corre com a velocidade da luz; nos momentos sombrios, ele se arrasta que só e cada minuto parece uma eternidade…quanto mais prestamos atenção nele, ele não passa; se cochilamos por um minuto, ele voa…

Outro dia vi um vídeo chamado Timeless-London Timelapse, que começava com essa frase: ‎“Time is like a handful of sand – the tighter you grasp it, the faster it runs through your fingers” (Henry David Thoreau). Traduzindo grosseiramente seria mais ou menos assim: O tempo é como um punhado de areia – o quanto mais você o aperta, mais rápido ele escorre pelos seus dedos

E não é que é? Ele não pára, não pára não…

Dessa janela, uma Londres desconhecida foi imaginada e um futuro por vir, vislumbrado...