Arquivo | fevereiro, 2012

Terrinha

25 fev

Quando iniciei o blog, tinha a intenção de fazer os primeiros posts sobre as viagens que fiz desde que cheguei ao continente europeu. Só que outras coisas foram acontecendo, que acabei deixando para trás duas viagens que adorei. Uma delas foi a que fiz a Portugal, em duas ocasiões diferentes. A primeira vez fiquei 2 semanas e a segunda, quatro dias.

Passeio pelo rio D'Ouro - Porto

Por motivos práticos, colocarei essas duas viagens juntas, tudo no mesmo bolo, pois como esse texto está vindo com tanto atraso (quase dois anos), ele será muito mais baseado em lembranças e memórias – já transformadas pelo tempo – do que em informações objetivas e detalhadas.

Castelo de São Jorge - Lisboa

Portugal para mim foi uma surpresa. Nunca tive vontade de conhecer, apesar da ascendência portuguesa. Sei que alguns dos meus bisavós são portugueses, e por isso sempre ouvi a minha mãe dizer que gostaria de conhecer a terra dos avós, mas eu mesma nem sei o nome dos meus bisavós de tão distante que essa geração é da minha. Eu explico. A minha mãe é caçula de 10 irmãos. A minha avó é de 1910 e o meu avô de 1904. Isso significa que os pais deles, meus bisavós, são do século XIX!!!

Vista do Parque do Palácio de Cristal - Porto

A verdade é que me surpreendi completamente. Conhecendo Portugal, me senti conhecendo um pouco do Brasil, da onde começamos. A culinária, a arquiterura, o bondinho, os santos, a história, tudo é muito familiar. Até língua, que apesar de parecer outra (rs!), é a mesma!;) Confesso que no começo eu morria de rir gratuitamente toda vez que ouvia o português de Portugal sendo falado na minha frente, pois me fazia recordar das muitas piadas brasileiras sobre a Terrinha. Mas depois você se acostuma, e parece que você está numa região do Brasil com um sotaque diferente do seu.

Em um dos bares da orla da Ribeira. Essas placas marcam algumas das cheias do rio D'Ouro. Se estivesse na de 78, teria me afogado...

Porto:

O parte antiga do Porto me lembra o Pelourinho e as cidades colonais de Minas. Os telhadinhos não negam e podem ser vistos do alto da Torre dos Clérigos!

Vista do Porto da Torre dos Clérigos

A livraria Lello vale a visita. Ela é  lindíssima por dentro e considerada por alguns como uma das mais belas livrarias do mundo! Ela se encontra no número 144 da rua das Carmelitas desde 1906!

Livraria Lellos

Bar do Piolho: esse restaurante/bar fica nas redondezas da Universidade do Porto. Ele é baratíssimo e foi lá onde comi o melhor bolinho de bacalhau da viagem com um divino feijão fradinho e um geladíssimo fino (chopp). Parece um daqueles botecos/restaurantes portugueses que tem na Lapa e no Centro do Rio. Até voltamos de tão bom!

Ribeira

O Cais da Ribeira é considerado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco. É uma área cheia de bares, restaurantes e ruelas com casarões antigos. A melhor vista da ribeira é de Vila Nova de Gaia, uma outra cidade do distrito de Porto que se localiza do outro lado do rio D’ouro.

Em Gaia, do outro lado do rio, a Ribeira.

É em Gaia que estão as caves do vinho do Porto. Eu visitei a Porto Ferreira, por conta do meu nome! =) Eu gostei de conhecer a produção do vinho do Porto, pois é bem menos mecanizada do que a do uísque. Visitei duas destilarias na Escócia, mas não me empolguei mesmo.

Porto Ferreira! Dona Ferreirinha foi quem começou o império...será que venho desse ramo e um dia vou ficar rica com uma herança inesperada? 😉

Um passeio maravilhoso que fizemos foi visitar uma quinta na região do D’ouro. O melhor foi que essa quinta não era turística, como muitas que tem na região, mas sim de uma família produtora de vinhos que nos recebeu maravilhosamente bem – uma cortesia à família do Felipe portuguesa que é cliente especial.

Seu Domingos

O nome da quinta é Quinta da Gaivosa. Seu Domingos Alves de Souza, o dono, nos levou em seu carro para conhecer as terras e as vinhas. Infelizmente não era época da colheita da uva e, por isso, estava tudo seco, mas foi o máximo conhecer melhor sobre a produção. Ele nos explicou com detalhes como ocorre a colheita, o melhor terreno para a uva, a estação. A plantação ocorre nas encontas dos morros que margeiam o rio D’ouro e o terreno é muito pedregoso, fica até difícil de imaginar que alguma vida sairá dali! E a colheita ainda é bem manual, pois por conta do terreno, o uso de máquinas fica complicado.

Rodando de carro com seu Domingos para conhecer a plantação das uvas...

Após o nosso passeio pelas terras, seu Domingos nos levou para uma sala para provármos alguns de seus vinhos.

A degustação...todos maravilhosos!

Aproveitamos que estávamos nas proximidades e paramos para conhecer e almoçar numa outra cidadezinha que margeia o D’Ouro chamada Régua. Lá entramos num pequeno museu do Vinho onde nos foi contado que na época da colheita da uva o cheiro da cidade muda e basta olhar para qualquer encosta para se ver homens trabalhando…

Régua

No mais, no Porto, visitamos os jardins do Serralves, o parque da Cidade, a Casa da Música (maravilhosa, por sinal!), a praia dos Ingleses e Matosinhos. E claro, comemos bacalhau, tomamos vinho, provamos azeites fantásticos, pãozinho da padaria fresquinho, suco de laranja natural, bolinho de bacalhau, comemos o tradicional queijinho da Serra e tomamos um fino (chopp, no Porto) bem gelado!

Estudantes da Universidade do Porto fazendo um som na Ribeira para levantar um dindin

Lisboa

Belém: Assim que chegamos em Portugal, fomos pedir um pastel de Belém em alguma confeitaria. Fizemos o pedido “Por favor, um pastél de Belém”, “Aqui não vende pastel de Belém”. Mas nós estávamos vendo o pastel de Belém exposto e apontamos para o dito cujo e o atendente falou “Ah, tá, vocês querem pastel de nata”. No começo achamos que era mais uma daquelas situações na qual você se sente numa piada de português e, soberbamente, nos acabamos de rir. Acontece que fomos à Belem e, realmente, pastel de Belém só em Belém! O resto é pastel de nata…

E não tem como confundir a tradicional confeitaria, pois há uma fila enorme na porta. Vale a pena esperar, pois ela anda rapidinho e você ainda terá a garantia que comerá um pastel saído do forno. Eu não gosto de pastel de nata e resolvi pegar um só apenas assim que chegamos. Mas é tão, tão maravilhoso, que na volta paramos novamente para comprar mais alguns…

Fila enorme para comprar o famoso pastel de Belém!

Além da pastelaria de Belém, fomos ao mosteiro dos Jerônimos, que é um lugar lindíssimo e vale a pena a visita.

Mosteiro dos Jerônimos

Ainda em Belém, procure pelo Monumento aos Descobrimentos localizado na beira do Rio Tejo, que nada mais é que uma homenagem aos descobrimentos feitos por Portugal de terras mundo afora, quando se lançou bravamente ao mar na expasão marítima dos séculos XV/XVI.

Monumento aos descobrimentos

Bem pertinho dali, há também a bonita torre de Belém.

Torre de Belém ao fundo...

Castelo de São Jorge: O castelo de São Jorge é bem central, fica no alto e de lá se tem uma vista ótima de Lisboa e do rio Tejo.

Vista do Castelo de são Jorge...

Bairro Alto: O Bairro alto me lembrou Santa Teresa e Lapa. Fui lá à noite curtir um fado vadio muito bom na Tasca do Chico. Aliás, esse lugar é fantástico, pois une a antiga e nova geração de fadista. O local é micro e quando o dueto começa, as portas se fecham e ninguém entra e sai e nem conversa. Nos intervalos, a casa se abre novamente e o entra e sai recomeça, assim como o burburinho. Fomos ao local com um português, que estava super excitado no dia pois a Mariza, fadista muito famosa e popular, estava numa mesa tomando uma cerveja. Ele ficou na expectativa de que ela cantasse em algum momento, mas não rolou.

Fado Vadio na Tasca do Chico. Mariza ao fundo, ao lado direito, de óculos

Papinho básico com Fernando Pessoa

Casa do Alentejo:  essa casa é uma espécie de associação da comunidade alentejana (uma região de Portugal) em Lisboa. Ela ocupa uma lindíssima casa que, entre outras coisas, tem um bar e restaurante. É um excelente local para dar uma descansada tomando um vinho alentejado por centavos com queijo de cabra! Tudo baratíssimo e o clima é ótimo, pois a casa é frenquentada por estudantes e não raro você verá alguém tomando um vinho e lendo um livro, ou uma animada discussão numa mesa qualquer.

Casa do Alentejo

Sintra: Sintra na verdade não fica em Lisboa, mas vale muito à pena ser visitada. É uma cidade serrana que tem duas principais atrações: o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena.  Como não tinha tempo de ir nos dois, fui ao Palácio da Pena, que se localiza no topo da montanha e de lá teria vista para o Castelo dos Mouros e para o mar. E não me arrependi.

Palácio da Pena

O Palácio da Pena foi um dos mais bonitos palácios que vi. Ele é todo colorido. Azuleizos azus, paredes rosa e amarela compõem um cenário maravilhoso. Sem contar que ele fica num topo de uma montanha e de lá se tem uma linda vista para o mar e para toda a vegetação do entorno. E lá também tem dois doces tradicionais deliciosos, a almofadinha e a queijadinha. Tem uma confeitaria tradicional, que não me lembro o nome, mas rodando no pequeno centrinho você a reconhecerá, pois também estará cheia. Dá para ir a Sintra e voltar no mesmo dia. Se não me engano, de trem, demora por volta de 1 hora de Lisboa. É bem fácil de ir e vale muito à pena! Foi um dos lugares de que mais gostei.

Palácio da Pena

No mais, em Lisboa,  ficamos rodando pela praça Dom Pedro, Bairro Alto, comendo super bem e tomando um Imperial (chopp em Lisboa) bem gelado, como no Brasil!

Ouvi brasileiros dizer que não gostaram de Portugal, porque não viram nada demais. De repente é isso, por ser tão parecido, não causa estranhamento. E quem vem do Brasil, talvez, quer ver algo completamente outro. Mas para os brasileiros expatriados como eu, Portugal é um pouquinho de Brasil ô ô.

Pegando uma prainha adivinha onde? Na praia dos Ingleses - Porto

Outro dia, no metrô…

15 fev

Estava caminhando num dos acessos ao metrô num dia desses e me deparei com essa música…

Não é a primeira vez! Recém-chegada a Londres, como se estivesse num filme, entro no metrô e sou agraciada pela música Berimbau, do Baden Powell e Vinícius de Moraes. Ficou marcado, pois foi uma das primeiras vezes que andava sozinha por aqui. O metrô era bem profundo e quando coloquei o pé na escada rolante, a música se iniciou. Pensei “tá de sacanagem!”. Fingi que não vi uma lagriminha se formar e segui em frente, sem olhar pra trás…

Hot Brazil

9 fev

Sexta-feira retrasada fui no “late night” do museu Victoria and Albert (V&A), que tinha como tema o Brasil. Já contei um pouco como funcionam os principais museus de Londres em posts anteriores e esse tipo de evento exemplifica bem o que disse antes sobre os museus serem mais do que museus aqui, servindo como importantes espaços de socialização. E daí a resistência enorme a se tornarem pagos (não é para turista, o Londrino usa muito!!!).

Essas “late nights” são como se fossem uma noitadinha que os museus fazem uma vez na semana (ou mês, depende). Nesses dias, o museu fica aberto até mais tarde, tem DJ, bebidas e atrações especiais.

E o último Friday Late do V&A foi sobre o Brasil, chamado “Hot Brazil”, que ganhou esse nome por conta da proximidade do Carnaval. Filmes, debates, instalações, workshops e música brasileira tomaram conta da noite.

Bar

Uma artista Brasileira, chamada Silvia Morgado, que mora e trabalha aqui, estava com um trabalho lá chamado “Free Advice”, que obviamente me lembrou todos os meus amigos “psi”. Ela ficava sentada numa cadeira com uma máquina de escrever dando conselhos. Era só sentar ao lado dela e começar a falar! No final, você ganhava uma prescrição – escrita na hora – que nada mais era do que uma letra de música da bossa nova ou um poema brasileiro. E não é que tinha uma fila enorme para a consulta?

A verdade verdadeira é que não consegui aproveitar muito o evento. Estava muito cheio, difícil de pegar bebidas e muita fila para ver o que estava rolando. Mas mesmo assim valeu à pena. Gosto muito da forma pela qual os museus são consumidos aqui. No geral, não há muita formalidade. Você pode sentar no chão, tirar fotos, fazer uma noitadinha nele, bater papo, comer…acho isso essencial para “deselitizar” a arte e torná-la mais comum e acessível. Às vezes as restrições são tantas quando se trata de museus, que o programa se torna chato e pouco atrativo para aqueles que não são “tarados” por arte.

Para finalizar a noite agradável, comida libanesa boa e honesta no Maroush

A seguir, um video do batuque lá dentro…