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Amsterdã

7 jul

Tenho uma amiga muito próxima que é apaixonada pela Holanda. A relação dela com esse país é marcada por muitos risos, lágrimas, idas e vindas e inesperados bons encontros. Em janeiro fui visitá-la em Amsterdã, pois não podia perder essa oportunidade de encontrá-la num lugar que ela ama tanto. E já havia algum tempo que ela me falava que queria ver a minha impressão da cidade, me cobrando um post. E eu, com essa baita responsabilidade, só adiando.

Bem, essa semana fui contagiada por ela a escrever sobre essa cidade que ela ama tanto. Então vamos lá. Amsterdã é uma delícia. Ela tem um ar romântico, expresso pelas muitas bicicletas estacionadas em qualquer canto da cidade; os infinitos canais, com as suas casinhas barcos; as diversas pontes; as casinhas tortas; e os barquinhos indo e vindo nos canais. Tudo isso dá um chame à cidade, transformando-a num lugar de calmaria, mesmo sendo a capital (Haia é a sede do governo) e maior cidade dos Países Baixos, com uma população com quase 800 mil habitantes (menor que São Gonça!!!). E olha que eu não peguei as flores, pois fui no auge do inverno e estava tudo seco. Não é à toa que essa minha amiga se apaixonou tanto pela cidade!!!

Ao mesmo tempo, Amsterdã tem um lado profano, “dark”, já que a prostituição é legalizada e a maconha também. Então passear pelo Red Light District (Bairro da Luz Vermelha) significa ver prostitutas se exibindo, chamando a clientela e muitos coffee shops, locais onde se vende maconha.

Red Light District

O engraçado é que esse lado profano se tornou tão turístico que há uma infinidade de souvenirs relacionadas a maconha e ao sexo. Daí sentimos o quanto esse tal de capitalismo é danado, não deixa passar nada e transforma tudo em mercadoria sem o menor pudor.

A experiência é bem engraçada, afinal, não é comum para o resto do mundo essa liberalização geral da Holanda. A prostituição é considerada uma profissão, como outra qualquer. E há de todos os tipos no mercado. Há meninas lindas, outras nem tanto, gordinhas, idosas, magras, altas, baixas, enfim, para todos os gostos. E basta ficar um pouquinho observando as vitrines, que você verá os clientes chegando, negociando preço, tudo numa boa. Há também uns teatros com shows de sexo ao vivo, além das cabines individuais. Se não bastasse tudo isso, há os coffee shops. Enfim, uma nova forma de organizar a cidade. Não conheço a história da Holanda e em qual contexto se liberou a maconha, mas sei que esse país sempre foi inovador em suas políticas de saúde, sendo um dos primeiros a implantar a política de redução de danos, distribuindo seringas aos usuários de heroína como forma de conter a disseminação da AIDS.

Camisinhas

Não tive tempo de ir a todos os museus de Amsterdã, mas os que fui recomendo. O primeiro é o museu do Van Gogh. É lá que está a maior parte da obra deste artista. Embora já soubesse um pouco sobre a história de vida do Van Gogh, sobre a sua loucura – por conta da época que estagiei num serviço que atendia psicóticos e neuróticos graves-, ver o impacto dessa loucura em sua obra é fascinante: a mudança dos traços, a temática, o tormento e também a beleza de um mundo ora visto como engolidor, ora visto cheio de cor.

Só um parêntese, o Van Gogh se tornou pintor nos últimos 10 anos de sua vida, em 1880. Começou a estudar pintura e seu primeiro quadro pago foi somente em 1882. Em tão pouco tempo de artista, Van Gogh produziu demais. Só no último ano de vida produziu mais de 80 pinturas. Em 1888, Van Gogh cortou um pedaço da sua orelha esquerda e em 1890, se matou com um tiro no peito. Há vários textos que teorizam sobre o quanto a pintura tinha uma função organizadora na vida do Van Gogh, ajudando-o em sua psicose. Mas vamos seguir pois senão esse post vai ficar “psi” demais. rs!

O legal é que o museu divide a obra do Van Gogh em períodos, o que dá para acompanhar bem o trabalho e vida dele. Ele é dividido em: primeiros trabalhos (1880-1886); Paris (1886-1888); Arles (1888-1889); Hospital psiquiátrico St Remy (1889-1890); e Auvers (1890). Essa divisão torna o museu bem didático para aqueles que não tem muita intimidade com arte, como eu.

O outro museu que visitei lá foi a casa da Anne Frank. O museu é emocionante porque você se conecta com o sofrimento daqueles perseguidos pelo nazismo. Você visita o anexo no qual Anne, sua família e mais uma outra família judia ficaram escondidos por dois anos. Conforme você vai passando pelos cômodos, trechos do diário da Anne é destacado. A menina escrevia tão bem, com uma riqueza de detalhes, que você pode sentir o que foram esses dois anos de privação naqueles cômodos, sem luz, sem fazer barulho, tudo para não serem descobertos. Até hoje não se sabe quem os traiu, mas em 1944 eles foram descobertos e levados para o campo de concentração. O único sobrevivente foi o pai da Anne, Otto Frank. Anne morreu aos 15 anos, a poucos meses do fim do nazismo.

Otto Frank, quando retornou a Amsterdã, descobriu o diário de Anne e o seu desejo de que ele fosse publicado. Em 1947, o Diário de Anne Frank foi publicado, se tornando símbolo do Holocausto e um dos livros mais traduzidos no mundo.

Casa barco

Fizemos um passeio de barco pelos canais, mas o tempo estava tão ruim que não achei tão fantástico esse programa. De resto ficamos zanzando pela cidade, nos perdendo pelas ruaszinhas, parando para apreciar um canal e outro e vendo a vida passar. Amsterdã é bem pequenina e isso é um ponto super positivo, pois se pode fazer tudo à pé, não se precisa de transporte e bater perna é o que há. Como alguns dizem, Amsterdã não é uma cidade para ser visitada, mas sim para ser experienciada. E eu concordo.

Jantar Holandês

Para finalizar, termino com uma historinha de viagem. Estávamos sentados apreciando um dos muitos canais da cidade e eis que surge um senhor num barquinho amarelinho tocando uma música. E logo uma pequena multidão começou a se juntar para apreciar a música desse senhor. E ela era super bonita e surreal ao mesmo tempo, afinal, não é qualquer dia que vemos um senhor num barquinho fazendo um som para simplesmente alegrar a todos, a troco de nada, pois não havia nem como dar dinheiro. Ficamos ali, sentados ouvindo um ótimo som, olhando o canal e papeando gostoso. Estou convicta que este velhinho músico no barquinho não cruzou nosso caminho à toa. Foi a energia boa dessa minha amiga, chamando para perto de nós o amor e as coisas boas da vida!

Música no canal

Recomendo o albergue que fiquei pois ele era ótimo, limpo e com um café da manhã honesto:
Stayok Vondelpark: http://www.stayokay.com/index.php?pageID=3207&hostelID=356022

Museu Van Gohh: http://www.vangoghmuseum.nl/vgm/index.jsp?lang=en

Casa Anne Frank: http://www.annefrank.org/en/