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O parto no NHS

1 out

Durante a gravidez, fiz vários posts sobre o pré-natal daqui. E agora chegou a vez de contar como foi o “desfecho” final. Fiquem tranquilos que os pouparei dos detalhes sórdidos (hahaha).  A ideia de compartilhar a experiência vem mais porque sei que muitos brasileiros que resolvem ter filho aqui ficam super preocupados sobre como será o parto num sistema de saúde estrangeiro e público, com uma filosofia bem diferente da brasileira.

A gente ouve muitas histórias sobre o parto vinda de brasileiros, como por exemplo, “fulana foi ao hospital 3 vezes e voltou”, “ficou 2 dias em trabalho de parto”, “eles não fazem cesária, deixam para o último minuto”, etc.  Essas histórias, é claro, apavoram sim, alguns até optam em voltar ao Brasil para ter o bebê. No meu caso, desde o começo, descartei a opção de uma volta. A nossa vida é aqui, não fazia sentido mudar tudo por conta da chegada do bebê, a não ser que achássemos, ao longo do pré-natal, que eu não estava recebendo o cuidado devido, o que não foi o caso (Há somente uma maternidade totalmente privada no Reino Unido, localizada em Londres, no Portland Hospital. Olhem o website aqui para informações e sintam o nível da “facada”).

Para começar a responder às perguntas, sim, fui ao hospital 3 vezes durante o trabalho de parto e voltei duas vezes para casa; sim, fiquei 43 horas em trabalho de parto, 30 e poucas horas com a bolsa rompida; sim, no fim do processo não consegui ter o parto normal e tive que ser submetida a uma cesariana.

O cenário parece terrível, mas na verdade não foi isso tudo. Quem estava acompanhando no Brasil o meu trabalho de parto, estava revoltado, achando que eu estava numa maca sofrendo horrores, sem cuidado e atenção, jogada num canto displicentemente…

E foi justamente o contrário! O atendimento que recebi do hospital foi excelente desde o começo do processo. Só que, certamente, é uma outra forma de proceder e eu estava preparada para isso, para esperar o parto normal acontecer e também para uma cesariana, caso as coisas não evoluíssem devidamente. Sabia que a cesária não seria me oferecida antes do parto normal ser tentado, então não houve traumas, até porque ele poderia ter acontecido (na enfermaria, no pós-operatório, conheci várias mães que tiveram normal e ficaram 2/3 dias em trabalho e estavam lá ótimas, em observação por tempo mínimo e dando “cambalhotas” de tão bem, dando um banho nas operadas!).

As contrações começaram meia-noite e meia de domingo para segunda. Como elas estavam irregulares, num intervalo de meia em meia hora, resolvi seguir o conselho que havia recebido durante a gravidez e tentar dormir. E nem avisei nada a ninguém. Por volta das 3 da manhã, elas estavam mais frequentes, de 15 em 15 minutos, mas ainda irregulares, umas chegavam a 1 minuto, mas outras não. No meio da noite, avisei ao maridão que naquele dia nasceria o nosso bebê, mal sabia eu que ele nasceria mesmo só na terça-feira às 19h30! Às 6 da manhã a minha bolsa estourou. Liguei para o hospital, ainda em dúvida se tinha estourado mesmo pois não foi algo claro, e eles me pediram para eu ir lá checar.

Fui tranquila, de metrô, andando calmamente e aproveitando o belo dia de sol. Chegando lá me foi dito que a minha bolsa estava estourada mesmo e que meu parto deveria evoluir em 24 horas, caso contrário, eu teria que me internar às 6 da manhã do dia seguinte para eles me monitorarem e induzirem meu parto. Até lá, eu deveria voltar para casa, relaxar, ir a um parque, almoçar, tomar uma taça de vinho, ou seja, ficar ao máximo tranquila para que o trabalho de parto evoluísse nessas 24 horas (Nesse momento, a galera brasileira que estava acompanhando de longe estava já chocada, afinal, como liberaram uma grávida com a bolsa estourada? ). É claro que estava com todas as orientações para que se algo mudasse para correr para lá, ou ligar imediatamente. Como estou a 15 minutos do hospital de táxi e com canal de comunicação direto com o hospital, relaxei e fomos embora.

Voltamos de metrô, caminhando calmamente (é impressionante como andar diminui a dor!) e jogando conversa fora sobre a vida, o futuro próximo, o passado.  Chegando em casa, seguimos o conselho do hospital. Fomos almoçar num restaurante italiano com a família, abrimos um vinho para celebrar a vinda próxima do Tom, depois vimos um filme juntos, sempre respirando a cada contração e tentando mentalizar que em breve o nosso bebê estaria conosco.

Por volta de meia noite, de segunda para terça, as dores estavam bem intensas, de 5 em 5 minutos. Como estava em dúvida se estava na hora de ir, liguei para o hospital e eles me pediram para ir lá, pois na dúvida, era melhor checar. O problema é que elas estavam irregulares quanto a intensidade, estavam de 5 em 5 minutos, mas umas duravam 1 minuto e outras 20 segundos. Enfim, não estava na hora ainda! Eles não poderiam ainda me oferecer uma suite, pois eu ainda não estava em trabalho de parto ativo. Poderia ficar lá na triagem, mas fui recomendada a voltar para casa, se quisesse, para ficar mais confortável. E foi melhor mesmo! Nessa madrugada já estava sentindo muita dor e passei a noite na banheira com água quente. Santo remédio, as dores ficam bem melhores e eu consegui sobreviver a elas.

Como nada aconteceu, às 6 da manhã de terça, 24 horas de bolsa rompida, voltei ao hospital para ser internada e começar a indução, que começa menos invasiva (mecânica, gel) até a mais invasiva, que é a aplicação de ocitocina sintética (nada é feito autoritariamente, tudo é consultado e você tem, na medida do possível, autonomia para decidir o que quer) . Enfim, passei  a manhã e a tarde, já devidamente acomodada e com todo o cuidado e monitoramento possível por uma equipe de médicos e midwives, esperando o parto normal acontecer. Mesmo sendo induzida, não consegui dilatar. Por volta de 7 da noite, com 30 e poucas horas de bolsa rompida, eu comecei a ter febre. Nesse momento, a equipe se reuniu e optou pela cesária. Me disseram que eu não estava em risco e nem o bebê, que podiam esperar mais 2 horas para ver se a minha dilatação evoluía. Mas nesse momento, já exausta das duas noites sem dormir, com medo da febre e sem muitas esperanças de que de 5 de dilatação eu fosse para 10 em duas horas, optei por não esperar mais.

E Tom veio ao mundo de cesariana, com 57cm e 3,950kg. Confesso que fiquei um pouco frustrada por não ter conseguido o parto normal. Se ele tivesse acontecido naquela terça-feira estaria tudo zerado e esquecido. Realmente não achei uma coisa do outro mundo não. É uma dor misturada com amor. Quanto menos espaçadas e mais fortes as contrações ficam, você sabe que mais próximo o seu bebê está de você e é muito bom saber que você o está ajudando a vir ver a luz, a nascer. Sinceramente, o pior foi ter que ser submetida a uma cirurgia de abdômen depois disso tudo e ter que conviver com o pós operatório com um recém-nascido nos braços (não há berçário, desde o primeiro minuto o bebê vai para o seu braço, operada ou não).

Mas a verdade é que quando estamos lá, no momento fatídico, só queremos ter o nosso filho nos braços. Não importa por onde e como ele saia, desde que saia, até pelo ouvido tá valendo!!! ♥

Uma manhã qualquer no metrô de Londres, menos para mim!

Uma manhã qualquer no metrô de Londres, menos para mim!

Família reunida na alegria e na contração! rs

Família reunida na alegria e na contração! rs

A melhor dor do mundo!

A dor que vale a pena!

E ele chegou!

E ele chegou, nos mostrando um amor maior, desconhecido, grandão, que chega a fazer o peito doer e que faz rir e chorar na mesma fração de segundo!

* Para confiar nesse modelo, realmente é necessário ter uma rede de amparo por trás. E eles confiam no sistema deles. Territorialização dos serviços, que colocam postos e hospitais perto de você, e sistema de comunicação e informação fortíssimos te dão a segurança de que no caso de qualquer problema você terá uma resposta rápida e eficiente. Desde o pré-natal fiquei impressionada como os serviços são integrados. Sendo atendida no GP ou no hospital, todas as informações estavam no sistema. Recebia mensagem de texto me lembrando das consultas, cartas com feedback dos resultados dos exames e ligações, caso tivesse que fazer algo mais específico. Além disso, o meu hospital disponibilizava uma “midwife virtual”, para responder perguntas não emergenciais através de email, página no facebook e twitter. Eu usei e funcionou (estava com dúvida sobre a autorização de viagem de avião no sétimo mês e sobre quando fazer exame tal, e sempre fui respondida prontamente!). Nunca tive como referência um médico, uma midwife, mas estava conectada a uma rede, equipe, 24 horas, que me “respondia” a cada demanda. Tentava pensar que o sistema de saúde aqui é referência e se o modelo deles fosse falho, as taxas de mortalidade e índice de problemas relacionado a partos seria alto, o que não é o caso.

** Falhas há, é claro, o NHS tá bem longe de ser perfeito e, dependendo do sue problema, ele é generalista demais, mas acho que para um sistema público e único, a experiência foi muito positiva, tanto em atendimento quanto em estrutura.

*** A qualidade do serviço do NHS varia de área para área. Não dá para generalizar. Essa foi a experiência que tive e, com certeza, há outros relatos, bom e ruins, por aí.

**** Acesse o site do NHS relacionado a gravidez e maternagem. Lá você encontra todas as informações oficiais sobre os cuidados no antes, durante e depois da gravidez. Tem muita informação de boa qualidade, além de você ir se familiarizando com o sistema. Lá você encontra todo o passo-a-passo. Link: http://www.nhs.uk/Conditions/pregnancy-and-baby/pages/pregnancy-and-baby-care.aspx#close

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O pré-natal no NHS

3 maio

Recentemente fiz um post que contava mais ou menos como funciona o sistema público de saúde daqui, chamado NHS. Nesse, vou explicar melhor como o pré-natal é organizado.

Para começar, gravidez aqui é tratada como a coisa mais natural do mundo. Os lugares, como supermercados, bancos, museus, não tem fila prioritária e descobri que assento prioritário no metrô é uma coisa recente. Senti muita diferença quando fui ao Brasil em março, aproveitei todas as prioridades de que tinha direito..hahahha! Adorei!!!

Dentro do sistema de saúde não é diferente. Gravidez não é tratada como doença e tudo é lidado de forma bem tranquila e calma. Se for o seu primeiro filho, você tem direito a no mínimo 10 consultas (isso pode aumentar dependendo da situação da gravidez). Se for o segundo filho, as consultas caem para 7.

Como aqui não é um país medicalizado, no sentido de que tudo gira em torno da figura do médico, muito do tratamento que você recebe é feito por enfermeiros e outros atores. As consultas de pré-natal ocorrem dentro do hospital, mas com as midwives (parteiras). O conceito de parteira aqui é um pouco diferente do Brasil. Elas foram incorporadas pelo sistema de saúde e tem uma formação rigorosa. São 4 anos de formação para se tornar uma; esse tempo diminui se já for enfermeira.

As midwives são atores importantíssimos, pois elas não só acompanham a sua gravidez – encaminhando para os devidos exames e identificando possíveis problemas – como são elas que realizam o parto, seja no hospital ou em casa. Os hospitais tem obstetras, mas eles só são chamados ou consultados no caso de algum problema durante o trabalho de parto, que geralmente não ocorrem no centro cirúrgico.

A cesariana aqui é vista como um procedimento cirúrgico e não como parto. Por isso, de forma alguma ela é sugerida ou até mesmo mencionada ou discutida (ver aqui sobre a política do NHS em relação a cesária). Não há escolha nesse sentido. Recebi  um folheto informativo sobre o parto e achei hilário o tom que eles usavam para  explicar a cesária. Era do tipo “em alguns caso há a necessidade de se fazer um procedimento invasivo, a cesariana, para não colocar a vida do bebê e mãe em risco”. Na verdade, ter que fazer uma cesária aqui é uma derrota, pois significa que algo de grave está realmente acontecendo. E ninguém quer passar por isso, né?

As consultas com a midwife consistem em tirar a pressão, checar a urina, mediar a barriga e ouvir o coração do bebê. E tem a parte informativa, cada consulta tem um tema, como amamentação, alimentação, parto, etc.

A gente recebe um carderninho com todas as 10 consultas agendadas e o que vai ocorrer em cada uma delas. Somente 2 ultras são garantidas (a da 12° semana e 20° semana), as outras acontecem se houver necessidade. Tudo é muito bem informado e consentido. Eu assino termos se quero fazer determinados exames ou não. Eu assinei para fazer os exames de sangue e também consenti as ultras que verificavam alguma anomalia. Acho que por ter tanta gente de culturas e religiões diferentes, eles não fazem nada contra a vontade do paciente, embora alertem para a importância de certos exames.

O meu hospital oferece 4 aulas de pré-natal para mim e meu parceiro. Farei durante o mês de junho. Essas aulas são temáticas: a primeira é para sabermos reconhecer o trabalho de parto e o que fazer; a segunda é sobre como lidar com a dor do parto e os anestésicos disponíveis; a terceira é sobre a importância do parceiro na hora do parto e discutir a indução ou casos mais graves; e a quarta é sobre cuidados com o bebê e amamentação.

Essas aulas são importantes, pois em determinado momento do pré-natal, eu tenho que fazer o planejamento do parto com a midwife, no qual ela deixará anotado o que eu quero (tem gente que escolhe fazer sem nenhum anestésico, outros escolhem com mas com restrições, etc).

Aqui eles esperam até 42 semanas. Na 41° semana, se o bebê não nascer, eles discutem uma possível indução de parto, se a mãe aceitar, a ser realizada até a 42° semana. A mãe pode recusar, mas eles apresentam todos os riscos dessa escolha de esperar mais de 42 semanas…

Bem, vamos as desvantagens:

– Como o sistema é público, ele é para todo mundo. Então você não terá um médico/midwife particular que te atenderá sempre. É um trabalho de equipe, cada consulta pode ser com uma midwife diferente e, como não se agenda parto aqui, no dia que chegar a hora, você será recebida pela equipe de plantão. Isso é uma coisa terrível para nós brasileiros, que gostamos de ter alguém de confiança ao lado.

– Eu acho duas ultras muito pouco! Por mim, faria uma por mês para ter certeza de que está tudo bem, ainda mais no final, para ver se está encaixado mesmo. É difícil acreditar que eles vão saber identificar que o bebê tá na posição certa sem “ver por dentro”.

– Embora o hospital seja ótimo, com boas instalações, nem sempre eles poderão garantir o conforto e privacidade de que você precisa.  Como não há agendamento prévio (salvo exceções), você e mais 20 mulheres podem entrar em trabalho de parto no mesmo dia e aí, mermão, ferrou, né? Já ouvi histórias de conhecidos que a pessoa foi ao hospital 3 vezes e foi mandada para casa, pois ainda estava longe.

– O processo não é rápido. As pessoas que conversei ou soube por amigos que tiveram aqui ficaram 18/ 20 horas em trabalho de parto…=O

Bem, por enquanto está tudo correndo bem. Esqueço até que estou grávida, pois desde o começo recebi instruções de seguir a vida normalmente, fazendo os exercícios que estava acostumada e ficando tranquila. É claro que dá um medinho, né? Cada mulher tem uma experiência de parto diferente. Para umas, tudo corre bem; para outras, nem tanto.  E no fim das contas, a gente só quer ter o filhote bem nos braços…então bate uma ansiedade para saber como será a minha hora! E isso, não dá para saber, só vivendo…ai, ai, muitas emoções por vir nesse últimos 3 meses!

No hospital...

No hospital…campanha para o parto ser o mais natural possível!

Obs 1: cada hospital e GP tem uma forma de organização, então o pre-natal pode variar um pouco, de acordo com o hospital onde a pessoa esteja inscrita. O sistema não é perfeito, há muitas falhas e, infelizmente, nem todos hospitais são bons. Esse post de forma algum tem como objetivo dizer que o sistema de saúde público daqui é perfeito, mas compartilhar a minha experiência nele até agora e também ajudar as brasileiras que, como eu, vão ter filhos aqui e não sabem como o pré-natal funciona por esses lados….

Obs 2: Não sou nada contra a cesária. Na verdade a cesária foi um grande avanço da medicina, quando mulheres pararam de morrer no parto com seus bebês atravessados. O problema maior é o seu uso indiscriminado. Tanta gente no Brasil querendo o parto normal e não consegue porque o sistema de saúde não o favorece. Li uma excelente reportagem sobre violência obstétrica aqui e um vídeo denúnica sobre essa situação aqui.