O pré-natal no NHS

3 maio

Recentemente fiz um post que contava mais ou menos como funciona o sistema público de saúde daqui, chamado NHS. Nesse, vou explicar melhor como o pré-natal é organizado.

Para começar, gravidez aqui é tratada como a coisa mais natural do mundo. Os lugares, como supermercados, bancos, museus, não tem fila prioritária e descobri que assento prioritário no metrô é uma coisa recente. Senti muita diferença quando fui ao Brasil em março, aproveitei todas as prioridades de que tinha direito..hahahha! Adorei!!!

Dentro do sistema de saúde não é diferente. Gravidez não é tratada como doença e tudo é lidado de forma bem tranquila e calma. Se for o seu primeiro filho, você tem direito a no mínimo 10 consultas (isso pode aumentar dependendo da situação da gravidez). Se for o segundo filho, as consultas caem para 7.

Como aqui não é um país medicalizado, no sentido de que tudo gira em torno da figura do médico, muito do tratamento que você recebe é feito por enfermeiros e outros atores. As consultas de pré-natal ocorrem dentro do hospital, mas com as midwives (parteiras). O conceito de parteira aqui é um pouco diferente do Brasil. Elas foram incorporadas pelo sistema de saúde e tem uma formação rigorosa. São 4 anos de formação para se tornar uma; esse tempo diminui se já for enfermeira.

As midwives são atores importantíssimos, pois elas não só acompanham a sua gravidez – encaminhando para os devidos exames e identificando possíveis problemas – como são elas que realizam o parto, seja no hospital ou em casa. Os hospitais tem obstetras, mas eles só são chamados ou consultados no caso de algum problema durante o trabalho de parto, que geralmente não ocorrem no centro cirúrgico.

A cesariana aqui é vista como um procedimento cirúrgico e não como parto. Por isso, de forma alguma ela é sugerida ou até mesmo mencionada ou discutida (ver aqui sobre a política do NHS em relação a cesária). Não há escolha nesse sentido. Recebi  um folheto informativo sobre o parto e achei hilário o tom que eles usavam para  explicar a cesária. Era do tipo “em alguns caso há a necessidade de se fazer um procedimento invasivo, a cesariana, para não colocar a vida do bebê e mãe em risco”. Na verdade, ter que fazer uma cesária aqui é uma derrota, pois significa que algo de grave está realmente acontecendo. E ninguém quer passar por isso, né?

As consultas com a midwife consistem em tirar a pressão, checar a urina, mediar a barriga e ouvir o coração do bebê. E tem a parte informativa, cada consulta tem um tema, como amamentação, alimentação, parto, etc.

A gente recebe um carderninho com todas as 10 consultas agendadas e o que vai ocorrer em cada uma delas. Somente 2 ultras são garantidas (a da 12° semana e 20° semana), as outras acontecem se houver necessidade. Tudo é muito bem informado e consentido. Eu assino termos se quero fazer determinados exames ou não. Eu assinei para fazer os exames de sangue e também consenti as ultras que verificavam alguma anomalia. Acho que por ter tanta gente de culturas e religiões diferentes, eles não fazem nada contra a vontade do paciente, embora alertem para a importância de certos exames.

O meu hospital oferece 4 aulas de pré-natal para mim e meu parceiro. Farei durante o mês de junho. Essas aulas são temáticas: a primeira é para sabermos reconhecer o trabalho de parto e o que fazer; a segunda é sobre como lidar com a dor do parto e os anestésicos disponíveis; a terceira é sobre a importância do parceiro na hora do parto e discutir a indução ou casos mais graves; e a quarta é sobre cuidados com o bebê e amamentação.

Essas aulas são importantes, pois em determinado momento do pré-natal, eu tenho que fazer o planejamento do parto com a midwife, no qual ela deixará anotado o que eu quero (tem gente que escolhe fazer sem nenhum anestésico, outros escolhem com mas com restrições, etc).

Aqui eles esperam até 42 semanas. Na 41° semana, se o bebê não nascer, eles discutem uma possível indução de parto, se a mãe aceitar, a ser realizada até a 42° semana. A mãe pode recusar, mas eles apresentam todos os riscos dessa escolha de esperar mais de 42 semanas…

Bem, vamos as desvantagens:

– Como o sistema é público, ele é para todo mundo. Então você não terá um médico/midwife particular que te atenderá sempre. É um trabalho de equipe, cada consulta pode ser com uma midwife diferente e, como não se agenda parto aqui, no dia que chegar a hora, você será recebida pela equipe de plantão. Isso é uma coisa terrível para nós brasileiros, que gostamos de ter alguém de confiança ao lado.

– Eu acho duas ultras muito pouco! Por mim, faria uma por mês para ter certeza de que está tudo bem, ainda mais no final, para ver se está encaixado mesmo. É difícil acreditar que eles vão saber identificar que o bebê tá na posição certa sem “ver por dentro”.

– Embora o hospital seja ótimo, com boas instalações, nem sempre eles poderão garantir o conforto e privacidade de que você precisa.  Como não há agendamento prévio (salvo exceções), você e mais 20 mulheres podem entrar em trabalho de parto no mesmo dia e aí, mermão, ferrou, né? Já ouvi histórias de conhecidos que a pessoa foi ao hospital 3 vezes e foi mandada para casa, pois ainda estava longe.

– O processo não é rápido. As pessoas que conversei ou soube por amigos que tiveram aqui ficaram 18/ 20 horas em trabalho de parto…=O

Bem, por enquanto está tudo correndo bem. Esqueço até que estou grávida, pois desde o começo recebi instruções de seguir a vida normalmente, fazendo os exercícios que estava acostumada e ficando tranquila. É claro que dá um medinho, né? Cada mulher tem uma experiência de parto diferente. Para umas, tudo corre bem; para outras, nem tanto.  E no fim das contas, a gente só quer ter o filhote bem nos braços…então bate uma ansiedade para saber como será a minha hora! E isso, não dá para saber, só vivendo…ai, ai, muitas emoções por vir nesse últimos 3 meses!

No hospital...

No hospital…campanha para o parto ser o mais natural possível!

Obs 1: cada hospital e GP tem uma forma de organização, então o pre-natal pode variar um pouco, de acordo com o hospital onde a pessoa esteja inscrita. O sistema não é perfeito, há muitas falhas e, infelizmente, nem todos hospitais são bons. Esse post de forma algum tem como objetivo dizer que o sistema de saúde público daqui é perfeito, mas compartilhar a minha experiência nele até agora e também ajudar as brasileiras que, como eu, vão ter filhos aqui e não sabem como o pré-natal funciona por esses lados….

Obs 2: Não sou nada contra a cesária. Na verdade a cesária foi um grande avanço da medicina, quando mulheres pararam de morrer no parto com seus bebês atravessados. O problema maior é o seu uso indiscriminado. Tanta gente no Brasil querendo o parto normal e não consegue porque o sistema de saúde não o favorece. Li uma excelente reportagem sobre violência obstétrica aqui e um vídeo denúnica sobre essa situação aqui.

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5 Respostas to “O pré-natal no NHS”

  1. camillaantunes maio 3, 2013 às 11:07 am #

    adoraria q no Brasil fosse assim, mais objetivo e sério. Fiz uma cesária invasiva e provavelmente desnecessária. Me resta sonhar com o próximo parto. Tb preciso juntar dinheiro. Tá praticamente impossível conseguir um médico q o faça pelo plano de saúde. Mas tenho certeza q tudo vai dar certo para vcs. A recompensa da dor é a melhor possível!

  2. Arminda Antunes maio 3, 2013 às 11:07 am #

    Vai dar tudo certo….mamãe tranqüila ajuda muito. Bjs

  3. Maria de Fátima Acioli de Lanteuil maio 3, 2013 às 1:23 pm #

    Vai dar tudo certo mesmo, como disse a Arminda, a tranquilidade dos pais ajuda muito. E você é forte, decidida, tranquila … É só ver como está encarando as fases da gravidez com consciência (viu como a fase dos enjoos passou sem deixar vestígios!). E cá para nós, as dores do parto são fortes sim, mas acabam no mesmo minuto em que você tem nos braços o “seu filho”. É mágico! Então vamos encarar com serenidade… E se por acaso a cesariana tiver que ser feita que seja por que foi o melhor para vocês dois, como no caso da Cecília. O importante é você e o Tom ficarem bens… Um grande beijo da sogrinha e amiga para todas as horas…

  4. Maria de Fátima Acioli de Lanteuil maio 3, 2013 às 3:10 pm #

    * corrigindo: O importante é você e o tom ficarem “bem”….

    • Marilce Buriche Bartalini maio 5, 2013 às 2:05 am #

      O seguro saúde não dá oportunidade para escolha de um determinado profissional para acompanhar a gestante? E o médico obstetra atende apenas as emergências? Não dão valor à medicina preventiva? Mas. desejo mesmo e tenho certeza que tudo correrá muito bem. Lembranças pra você e Felipe. Marilce

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