“Vovô, vovô…”

11 jul

Vi uma reportagem há pouco tempo que dizia que o livro Memória Póstuma de Brás Cuba, do Machado de Assis, era um dos cinco livros preferidos do cineasta Woody Allen. Imediatamente lembrei do meu falecido vovô Hélio, que há 16 anos não convive conosco mas que ainda deixa muitas saudades.

Vovô não teve muita instrução, trabalhava como torneiro mecânico num estaleiro, sempre teve uma vida humilde, mas sempre adorou ler. Comecei a ler por influência dele. Lembro que por indicação dele li Vidas Secas, do Graciliano Ramos, aos 13 anos! Um livro bem pesado, árido e difícil de ser digerido. Foi uma pancada, mas ali comecei a gostar de ler. Ele amava Jorge Amado e Machado, e a minha porta de entrada para o mundo da literatura foi feita por ele (e minha tia Ledona!), o que eu agradeço imensamente.

Vovô era uma daquelas pessoas marcantes, sem estudo, mas muito culto, sensato, íntegro e de caráter. Sempre gostou das coisas certas, sempre foi um homem de palavra, um exemplo para a família! E a casa dos meus avós sempre foi sinônimo de aconchego. Eles tinham um quintal cheio de árvores, onde nos divertíamos colhendo frutas. Vovô sentava a gente no degrau da varanda e ali ficávamos conversando enquanto ele descascava laranja. Comíamos milhares juntos!!! Sempre que chegávamos lá, ele vinha com biscoito cream crack com manteiga e açúcar para nos oferecer e só nos levava embora quando a primeira estrela no céu aparecesse. Ficávamos um tempão sentados num tronco da casa do vovô olhando o céu e esperando a bendita estrela aparecer para fazermos o nosso pedido e irmos embora. Foi a primeira pessoa a nos fazer olhar para o céu e a sonhar com um mundo maior do que aquele que nos cercava! Ele tinha um sonho, ganhar na loteria e levar todos os netos a Maceió!!! Não sei o porquê de Maceió, mas com certeza se um dia passar por lá, vovô vai estar nos meus pensamentos…

Na verdade já havia algum tempo que vinha pensando no vovô. Passei 3 semanas no Brasil e fiquei observando a relação linda entre meu sobrinho e os meus pais, avós de primeiríssima viagem e, por isso, super “babões”. Apesar de ter somente 1 ano e 5 meses, quando entramos em São Gonçalo um dia, ele começou espontaneamente a falar “Vovô, vovô…”, mostrando que já reconhecia a casa dos avós! É óbvio que me emocionei e me lembrei o quanto sempre adorei a casa dos meus avós, local onde os primos se reuniam e de comidas incríveis – o bolo batido na mão por vovó (o mais fofo e melhor do universo), a carne assada do vovô (ainda posso sentir o sabor dela desmanchando em minha boca!), a farofa de ovo, o delicioso feijão e o picolé feito em forma de gelo!!! Quando eles se foram, um pouquinho da gente se foi também, mas as lembranças continuam para sempre…

E, hoje, ver o meu sobrinho se divertir na casa dos avós é lindo, é voltar ao passado! Para ele lá é um parque de diversões, não consegue nem dormir. Fica encantado com o ventilador de teto, que não tem na casa dele, com o registro de água, com as panelas secando no sol, com o quintal cheio de quinquilharias da mamãe…para ele é uma super aventura!!!rs!

Bem, estou aqui no meio de tantas lembranças boas porque hoje é aniversário do vovô do Pedro, que além de pai lindo e maravilhoso, tem me saído um vovô incrível, como o meu vô Hélio sempre foi (se eu não me engano, Hélio foi a primeira palavra que falei ou escrevi! Tenho que consultar a irmana, pois a minha memória a cada dia  fica mais nebulosa…rs!)

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4 Respostas to ““Vovô, vovô…””

  1. Maria de Fátima Acioli de Lanteuil julho 12, 2012 às 1:08 am #

    Lindo, Rhani. Uma bela homenagem a todos os vovôs e vovós. Eu também espero ser uma vovó tão amada assim!

    • desconstruindorhani julho 12, 2012 às 3:41 pm #

      Você será, não tenho dúvidas! Já é muito amada por todos ao seu redor e não será diferente com os netinhos!!! Bota essa turma para “trabalhar” e começar a encher a sua casinha com os pequenos…hahaha

  2. Rafa julho 12, 2012 às 3:33 pm #

    Querida,
    Como é bom relembrar nossa infância com seus textos! Impressionante como tenho os mesmos registros que você! Eu também fui influenciada por ele na leitura, só que meu primeiro livro foi Mar Morto. Tb me recordo das gostosuras que comíamos lá, das brincadeiras no quintal, dele falando para nós “eh, bonitona do avô!” todas as vezes que chegávamos lá, das idas à feira onde comíamos várias frutas de graça, dele nos colocando na corcunda. etc
    Eram ótimos os dias que ficávamos lá! Éramos muito paparicadas pelo vô e pela nossa querida pimpinha!
    Quanto ao vô do Pedro, ele merece todas as homenagens do mundo! Tem sido um super-avô e o Pedro o adora. Não tinha dúvidas disso, pois ele sempre foi um ótimo pai. Sempre atencioso e amoroso!
    Tenho tanto orgulho da família que construímos!
    PS: Quanto a sua primeira palavra, você escreveu o seu nome. Fui eu mesma que te ensinei. Vc escrevia bem pequenininho, nem conseguíamos ver direito. Rsssss Eu que escrevi o nome do vovô primeiro. Depois confirmamos com mamãe.
    T amo, linda.
    Bjinhos,
    Rafa

    • desconstruindorhani julho 12, 2012 às 3:39 pm #

      hahaha…sabia que podia estar roubando a sua memória!!! Sabia que uma de nós escreveu ou falou o nome dele primeiro, mas estava na dúvida sobre quem…achei que tinha sido eu! =(((

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