Os de Lagaye e de Lanteuil – parte 1

2 maio

Nesse mês fizemos uma viagem muio especial de 1 semana pelo interior da França. O objetivo principal, na verdade, era conhecer as terras dos antepassados da família do Felipe. O meu sogro já  havia visitado essa parte da França duas vezes, pois ele é fissurado em história em geral, e não podia ser diferente em se tratando da própria família. Então, ele quis reunir os filhos para mostrar da onde parte da família deles vieram. E, eu, como sou uma de Lanteuil agora, “entrei de gaiato nesse navio”…rs!

Por conta disso, fomos a cidades nada turísticas, bem pequeninas, algumas com somente quatro casas e um tanto quanto fantasmas. Mas também aproveitamos para conhecer as cidadezinhas da redondeza recomendadas pelos guias turísticos. Na verdade, essa viagem superou qualquer expectativa. Lembro que o Felipe comentou com uma colega de trabalho francesa que estava indo para essas regiões e ela ficou chocada “Mas o que vocês vão fazer lá, não tem nada!”. Ledo engano! As regiões que visitamos são cheias de história pra contar, castelos e cidades medievais, comida caseira divina (do interiô!), rios e cidades encrustadas na pedra.

Bem, começo com uma breve histórico da família para depois entrar no roteiro em si. Os sobrenomes do Felipe são “de Lagaye” e “de Lanteuil”. Esses “de” significam que eles vieram de famílias nobres, já que trazem os nomes das terras que pertenciam à família. Nobres de coração, eu já sabia que eram há muito tempo, então não foi nenhuma surpresa isso! =)

Bem, como não dá para recapitular toda a genealogia da família, registro aqui a parte na qual as famílias Gaye (que virou “de La Gaye” e depois “de Lagaye” ao longo dos anos) e Lanteuil se uniram.

“Os senhores de Lagaye”

Em 1550, a família Gaye habita o Castelo de Gaye, em Lostanges, na Corrèze. Por volta de 1580, Pierre de Gaye ganha um título de nobreza ao se tornar “Conseiller Sécretaire” do rei Henri IV. Porém, foi somente em 1683 que Pierre Gabriel de Gaye – neto de Pierre de Gaye –  adquire Lanteuil através do casamento com Jeanne d’Estresses. Jeanne d’Estresses possuía Lanteuil por conta de uma herança deixada por sua mãe, a Madeleine de Mirandol. O filho deles, Raymond de La Gaye era Visconde de Lanteuil.

Eis a prova de nobreza da família!

Os netos de Raymond de La Gaye, Pierre Charles Hubert – Visconde de Lanteuil na ocasião – e François, emigram para lutar nos exércitos realistas na Suíça durante a Revolução de 1792 . Seus bens em La Gaye e Lanteuil são confiscados.  Pierre Charles Hubert morre no combate e François torna-se Visconde e, depois da restauração da monarquia francesa em 1815, torna-se Conde, recuperando as propriedades de La Gaye e Lanteuil. Ele volta a morar em La Gaye, virando prefeito de Lostanges.

Brasão de Lostanges – detalhe que esse rapaz da foto é um dos antepassados e se parece bastante com um tio. Ficamos impressionados com as semelhanças!!!rs!

Seus filhos, Alphonse e Hippolyte, são os últimos a nascerem em La Gaye. Eles moram lá até a morte do pai, em 1848, quando se mudam para Clemont-Ferrand, no Auvergne, para morar na fazenda Le Monteix (hoje, Le Montet) em Condat-en Combraille, onde em 1894 nasce Henri de Lanteuil, bisavô do Felipe. 

A foto está péssima, mas dá para ver o brasão da cidade de Lanteuil

O bisavô do Felipe – Henri de Lanteuil – lutou na Primeira Guerra Mundial. Ele estava num covento para ser padre quando foi convocado para lutar nas trincheiras. Ele ficou alguns anos lá, até que decidiu seguir para o Brasil numa missão religiosa. Já na Espanha, a sua mãe alcançou-o para tentar convencê-lo a voltar, mas não teve jeito, o destino era Brasil mesmo. Ele partiu, então, rumo ao Brasil , mas chegando em Cananéia, São Paulo, se desencantou com a vida religiosa, abandonou o grupo e foi para o Rio, onde conheceu uma bonita brasileira, dando, assim,  início ao ramo brasileiro dos “de Lagaye de Lanteuil”.

Ufa, depois dessa sessão de história na veia, vamos ao roteiro. Focamos nas regiões Corrèze, Dordogne, Lot e Haute-Vienne. Infelizmente não conseguimos ir à região do Auvergne ver uns vitrais de umas igrejas do trisavô do Felipe, o Hippolyte, por ficar muito longe da onde estávamos.
Ficamos hospedados em Brive-la-Gaillarde, que é a cidade mais populosa da Corrèze, com cerca de 50 mil habitantes. De lá, partíamos todos os dias para visitar as cidades do entorno. Carro é essencial para conhecer essa região.

Brive-la-gaillard

Vou começar pelas cidades que tem relação com a família.  Começamos por Lostanges, cidade na qual La Gaye faz parte. Lostanges é uma cidade com cerca de 130 pessoas. Mas na prática, é quase uma cidade fantasma. Chegamos lá com o objetivo de conhecer uma igreja do século XII – construída no lugar de uma antiga fortaleza – e também a associação dos amigos de Lostanges, onde se encontram documentos históricos sobre as famílias da região, inclusive da família La Gaye. Batemos na casa de uma senhora que nos abriu a igrejinha, que tem um retábulo muito bonito, recém restaurado. Ela simpaticamente chamou um outro senhor, que abriu a Assossiação para a gente. Lá, vimos a pasta com as cópias dos documentos sobre a família La Gaye (títulos de nobreza, certidões de casamento, nascimento, etc).  O próximo ponto de interesse era La Gaye, vilarejo de Lostange, para onde partimos logo em seguida.

Lostanges

Em La Gaye, o objetivo era ver as ruínas do castelo da família, que foi destruído na época da revolução francesa e as suas pedras, roubadas para a construção de casas na área. La gaye é minúsculo, tem apenas 4 casas. Assim que chegamos uma senhora de uma outra casa apareceu para perguntar o que queríamos (afinal, quantas pessoas passam por lá por dia?) e aproveitou para oferecer a casa dela, construída com as pedras do antigo castelo, que estava à venda. Tentamos em vão contactar alguém da casa onde as ruínas do castelo se encontram, mas não obtivemos nenhuma resposta, infelizmente.
Visitamos também o Castelo D’Estresses, que pertencia a Jeanne d’Estresses, também ancestral da família. O castelo abriu recentemente à visitação. E o tour foi super legal e bem pessoal. O atual dono faz o tour, explicando detalhes de sua construção, como a sua família adquiriu o castelo, algumas curiosidades da história dele (no pós-revolução, o castelo foi dividido e chegou a pertencer a 3 famílias diferentes, visto as dificuldades para mantê-lo). O tour foi bem longo, já que o dono do castelo parecia bem empolgado e apaixonado por aquilo que estava fazendo. A sua esposa, prefeita de Astaillac, veio depois nos cumprimentar, acompanhando parte do tour, e esbanjou simpatia como o seu marido.

Chateau d’Estresses

Chateau d’Estresses

Lanteuil também foi emocionante conhecer, a família estava muito empolgada. A cidade também é bem pequena, mas maior que Lostanges e La Gaye. Ela tem por volta de 500 habitantes e uma igrejinha do século XV. Há também o castelo de Lanteuil, que um dia foi da família, que se desfez dele quando se mudaram para o Auvergne
Ele estava fechado, então não rolou de ir lá bater na cara de pau e pedir para conhecê-lo por dentro. Mas conseguimos ver a igreja. Assim que chegamos, fomos abordados pelo presidente da associação folclórica e o prefeito da cidade. E eles foram uma simpatia! Abriram a igreja para a gente e nos levou à prefeitura.  O prefeito, ainda, nos levou em sua casa para conhecermos a sua cave (adega) do século 16. Quanta gentileza! Só faltou mesmo abrir um vinho e tomar com a gente… rs! Voltamos a Lanteuil uma segunda vez para almoçar lá e comprar algumas souvenirs e não nos arrependemos. Paramos num restaurante familiar local (Lanteuillois) e comemos uma comidinha super ultra caseira honestíssima, boa e barata. As cidades são tão pequenas que os prefeitos parecem síndicos, totalmente acesssíveis.
No mais, demos uma parada em Martel, a cidade das 7 torres, para ver as torres de Tournemire e Mirandol, de famílias ancestrais. Fomos num domingo de Páscoa e a cidade estava bem vaziinha, então foi uma parada bem rápida.
Martel - foto internet
E ainda vimos o Castelo de Mirandol, que se localiza numa propriedade privada, mas mesmo assim entramos nela para perguntar se podíamos vê-lo. E, mesmo receosos de sermos mal recebidos, conseguimos chegar no castelo! Ele estava alugado para uma outra família, que nos permitiu tirar uma foto de fora.

Mirandol

Bem, esse foi o roteiro familiar. No outro post, escreverei sobre as outras lindas cidades que visitamos não relacionadas à família e, vamos dizer assim, mais turísticas.
Informações práticas:
– nesse site, feito por um “de Lagaye de Lanteuil” do ramo francês, podem ser encontradas informações mais detalhadas sobre a família: http://mapage.noos.fr/ddel/histoire/histoire.htm
– ficamos num hotel em Brive duas estrelas bem bom, chamado Ace.
– eu não sou especialista na história da família, então posso ter confundido algo. Aliás, só consegui escrever esse post graças ao sogrão, o verdadeiro entendedor. Então, muitas das coisas que escrevi aqui são falas e histórias vindas dele, que estudou, pesquisou e ouviu da própria boca do seu avô, o Henri.
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8 Respostas to “Os de Lagaye e de Lanteuil – parte 1”

  1. Rafa maio 2, 2012 às 11:19 am #

    Linda história! Linda homenagem à família que te acolheu com tanto carinho! bjos

  2. camillaantunes maio 2, 2012 às 12:24 pm #

    q chique, amiga! Uma viagem interessante, cheia de emoção, com uma família linda!

  3. luisaestanafranca maio 2, 2012 às 10:11 pm #

    Só digo uma coisa: mar tu tá chique dimais, sô!

    • Carlos Costa junho 11, 2012 às 9:59 pm #

      Ola, gostei de ler o tua viagem. Estou tentado a fazer o mesmo este ano em Agosto 2012. Faz 40 anos que deixei Tulle e nunca mais la voltei. Vou aproveitar de rever Tulle e conhecer a Corréze.

      • desconstruindorhani junho 12, 2012 às 2:45 am #

        Oi Carlos. Não fui a Tulle, mas amei a Corréze, super recomendo! Se anima e vai sim!!!

      • Carlos Costa abril 5, 2013 às 10:04 pm #

        Em Agosto de 2012, passados 40 anos fui reviver Tulle. Conheci algumas aldeias de Corréze e do Limosin que adorei, mas como estava muito ansioso e nervoso devido a voltar a Tulle passados estes anos todos, não me deixou apreciar devidamente aquelas belas paisagens. Penso voltar a fazer esta viagem mas com menos ansiedade para poder apreciar aquela bela região de França.

  4. Karina Lantuil junho 11, 2012 às 2:33 pm #

    Fiquei encantada com toda a historia que você relatou, nao conhecia nada das raizes familiares, até ler a sua viagem, deve ter sido inesquecivel.

Trackbacks/Pingbacks

  1. Uma vida no campo (Interior da França – Parte 2)! « desconstruindorhani - maio 12, 2012

    […] post anterior descrevi o nosso percurso pelas cidades que tinham relação com a família do meu marido. Nesse […]

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