O avental todo sujo de ovo…

27 mar

A ideia do blog não era se tornar um local de homenagens sem fim a pessoas importantes em minha vida. Mas acontece que viver longe me “revelou” um outro lado das minhas muitas facetas, que é a capacidade de me emocionar e amar ainda mais as pessoas. E como eu fiz “homenagens” públicas para o papi e a irmana, não podia faltar a dela, a abelha rainha. Prometo que páro com isso em breve antes que a paciência de vocês acabe com tanta melosidade (a minha já está se esgotando!) =)

Estava conversando um dia com a minha irmã sobre maternidade e ela me falou uma coisa que me impressionou, não pelo conteúdo da fala, que é um tanto quanto óbvio, mas pela constatação de que ela havia virado mãe, um caminho sem volta! Ela me contou que sempre quando via um acidente, ou uma notícia ruim no jornal, ela rezava e pedia a Deus que a livrasse daquele mal. Depois que ela teve filho, ela me disse que nunca mais conseguiu pedir para si própria, só para ele e por ele.  Caramba, que amor é esse que desconhece qualquer vaidade, orgulho, egoísmo, amor próprio (facetas nossas que tentamos esconder, mas insitem em povoar a nossa mente, mesmo que as reprimimos em prol do politicamente correto)?  Esse é o o amor de mãe (e pai!) na maioria das vezes – para não normatizar muito esses papéis -, que só conhece doação e amor sem medida!

Acontece que a gente nasce na perspectiva de filho e somente muito tempo depois vamos reconhecer e entender o quanto de doação, investimento (não financeiro, mas emocional mesmo) e renúncia existe na nossa relação com os nossos pais. Foram sonhos deixados para trás, horas a mais trabalhadas, noites mal dormidas por conta de uma doença ou outra, noites não dormidas pela falta de notícia, celebração de cada pequena conquista nossa. E tudo isso sem fórmula, sem manual, aprendem a ser pais na experiência, enquanto administram os outros importantíssimos papéis como o de esposa (o), de mulher (homem), de filho, de profissional…e um dia ainda ouvirão, de repente no auge da adolescência, ainda que da boca para fora, que foram culpados pela infelicidade dos filhos! É mole? A rapadura é doce, mas é dura pra caramba!!!

E vai perguntar se não valeu a pena? Uma vez minha mãe me disse que metade das coisas que ela conseguiu, ela não teria alcançado se não tivesse alguém para lutar por. E é nela mesmo que eu queria chegar. Dona Eva. Nascida depois de Cosme Damião, Damião e Adão, alguns dos seus muitos irmãos. Na mito bíblico fundador, Eva levou Adão a morder a maça proibida, fundando a humanidade no pecado. Danada essa Eva!

Como na história mitológica, ela não se contentou em somente viver no paraíso com Adão, ela queria mais. E foi isso que ela fez. Caçula de 10 irmãos de uma família bem humilde, ela não aceitou o destino que lhe esperava de ser esposa e criada para o lar. Meu avô não permitia que as mulheres estudassem, só os homens. Mas ela não se conformou e decidiu aos trancos e barrancos continuar. Começou a trabalhar com 9 anos e fez de um tudo. Carregou balde d’água, bolsas de compras  na feira, foi empregada doméstica, professora, secretária de político, vendedora de batata frita e dona de casa, não necessariamente nessa ordem. Quando não podia mais estudar no ensino público, bateu numa escola particular e ofereceu trabalho em troca de estudos. E não parou…

Medo de trabalho nunca teve. E muito menos de nada. É alegre, sorridente e vive saltitando por aí com uma energia que ninguém entende, apesar das dores que sente aqui e acolá. É caridosa, doa o que tem e poucas coisas guarda para si própria. Se meu pai me ensinou retidão, ela me ensinou a amar sem medidas, sem preconceitos, a ser paixão, emoção e explosão! “A gente não leva nada dessa vida…” posso ouvi-la dizer…

Quando eu era criança, sábado era dia de faxina e de vitrola rolando com Roberto Carlos, Agepê e Nelson Golçaves (o mais odiado por nós, na ocasião). A minha tarefa sempre foi a de tirar o pó dos móveis, tarefa que detesto até hoje (por que será?). E como ela não tinha muitos vinis, as músicas se repetiam e acabaram virando clássicos na minha memória, que me fazem lembrar dela quando as escuto. A música “Mamãe” do Agnaldo Timóteo foi uma dessas músicas que se repetiu muito. Acho que ela a colocava repetitivamente numa tentativa de que a letra entrasse, de alguma forma, por osmose em nossa mente. Se foi a música do Agnaldo, eu não sei, mas que ela é definitivamente a dona de tudo e vale mais para mim que o céu, a terra e o mar, isso é!

“Ela é a dona de tudo,
Ela é a rainha do lar,
Ela vale mais para mim,
Que o céu, que a terra, que o mar,
Ela é a palavra mais linda,
Que um dia o poeta escreveu,
Ela é o tesouro que o pobre,
Das mãos do senhor recebeu,

Mamãe, mamãe, mamãe,
Tu és a razão dos meus dias,
Tu és feita de amor e esperança,
Ai, ai, mamãe,
Eu te lembro chinelo na mão,
O avental todo sujo de ovo,
Se eu pudesse,
Eu queria outra vez mamãe,
Começar tudo, tudo de novo”

Algumas das suas músicas preferidas para faxinar:

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9 Respostas to “O avental todo sujo de ovo…”

  1. maria março 27, 2012 às 7:10 pm #

    Rhani, sua danada, você me emocionou de novo!! Adorei conhecer um pouco da sua mãe e minha admiração por você e pela sua família aumentaram ainda mais… Beijoca

    • desconstruindorhani março 28, 2012 às 6:47 am #

      Obrigada, querida! De repente ela nem é tão incrível assim, somente aos meus olhos saudosos…;) beijão

  2. Rafa março 27, 2012 às 9:35 pm #

    Querida!
    Estamos eu, mamãe, mãia, tia Iracema, tia Bete e Fabio lendo seu texto. Estamos todos muito emocionados e mamãe ficou toda boba! Depois ela agradece o lindo presente.
    Amei o texto, me fez lembrar de muitas coisas boas que vivemos. Agradeço à Deus por ter me dado uma família tão maravilhosa: uma mãe lutadora que sempre nos mostrou o que é certo; um pai amoroso e dedicado as filhas e, agora, ao neto; uma irmã muito amada que é o amor da minha vida e um filho que é a minha luz, meu ar, minha vida! Muito obrigada por existir na minha vida. Te amo, te amo, te amo!

  3. Joana março 28, 2012 às 12:49 am #

    Essa família sempre me emocionou e me emociona muito! Que lindo presente para sua mãe, amiga!!
    Assim, como a Maria e como sempre, você me deixou com lágrimas nos olhos! Ao mesmo tempo, ri muito imaginando a cena da faxina!!!
    Ai, que saudade de doer! Beijos e beijos

  4. Fátima Acioli de Lanteuil março 28, 2012 às 8:44 pm #

    Eu costumo dizer que a vida só fica completa depois que temos os filhos. Eles são o complemento, a essência, tudo o que de melhor podemos deixar neste nosso mundinho. E ter filhos como você Rhani (e como o meu filhote Felipe) é um presente muito especial e nós (Eva e eu) podemos nos considerar ganhadoras do melhor prêmio de loteria possível…
    Sua mãe é realmente um exemplo de superação, dedicação e animação!
    Que você continue sendo esta filha e nora tão amorosa e amada.
    Beijos e parabéns pela bela família…
    Da sogrinha coruja…

  5. Cátia Sodré abril 17, 2012 às 2:29 am #

    Rhani

    Fiquei muito emocionada com tudo que escreveu. Tia Eva sempre será, também, um exemplo para mim. Me considero uma sortuda em ter vivido muitos momentos marcantes e importantes em minha vida ao lado desta pessoa maravilhosa que é minha tia, amiga, incentivadora…. a Eva!
    E você, querida, não poderia vir diferente… um doce! Assim como ela!
    Beijos

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