Futebolices

25 set

Nessas semanas pensei tanto em futebol, que decidi fazer um post sobre esse prazer comum a muitos brasileiros. O motivo pelo qual o futebol tem povoado tanto meus pensamentos se deve, principalmente, ao longo momento “parado na esquina” do Mengão no campeonato brasileiro e, também, às muitas discussões que venho travando desde 2008 com uma amiga botafoguense fanática por futebol, que faz doutorado sobre essa temática.

Uma das paixões mais fiéis que temos na vida é aquela dispensada a um time. Se você é um torcedor praticante, vai entender bem o que falo agora: a gente troca de tudo, esposa (o), roupa, carro, casa, mas nunca troca de time. Ele estando numa fase boa ou ruim, estamos lá. Melhor dizendo, no âmbito do torcer, não existe ESTAR e sim SER. Nós SOMOS tal time. Enjoamos de muitas coisas na vida, mas nunca vi ninguém dizer que estava enjoado do seu time e precisava dar uma renovada torcendo para outro, para sair da rotina…

O que acho interessante é que tudo isso não está ligado ao ganhar somente. A disputa em si, o processo, é o que mais agita, mobiliza e incita. É óbvio que o ganhar é importantíssimo. Não acredito na comum frase “o importante é competir” (que geralmente ouvimos quando perdemos). Embora seja muito nobre, queremos mesmo é ganhar e “destruir” (por favor, simbolicamente!) o nosso rival. Mas certamente o que mobiliza de verdade é o processo, é a possibilidade da vitória e não a certeza. Até porque a vitória é fugaz. Se ganha um campeonato e no dia seguinte já se começa a pensar no outro, nas novas metas. A vitória em si não nos satisfaz, como nada na vida, plenamente. Rapidamente um vazio nos toma conta e mais uma vez, insaciados, partimos em busca de uma nova competição para ganhar…

O ato de torcer me parece oscilar entre o masoquismo e o sadismo. Prefiro a fase sádica, na qual os rivais sofrem na nossa mão, embora a fase masoquista seja inevitável, quando nada dá certo e é só sofrimento mesmo e, mesmo assim, não esmorecemos.

Torcer é um exercício de fé. Não há lógica, não há verdades, matemática ou muito menos razão. É a sua crença de que o impossível pode acontecer – juntado a milhares de outras pessoas acreditando -, que o impossível acontece sim. Por isso ir ao estádio é o auge da experiência. É lá que você vive cada minuto, cada jogada como uma real possibilidade de mudança. Não há distração. É você totalmente conectado e em comunhão com aqueles atores e os seus recursos: time, torcida rival, torcida própria, músicas, provocações, risadas e choros. Amo esse palco de emoções. Num mundo marcado pelas verdades científicas, onde o que tem valor é aquilo que se comprova empiricamente, é um alívio saber que existe um espaço onde a razão não tem vez.

"Quisera ser imortal para viver a glória eterna do Flamengo"

A minha vida de torcedora começou tardiamente. Com um pai tricolor que detesta confusão, não tive nenhum tio bacana para me levar ao estádio. Mas acho que o apreço pelo futebol começou cedo, quando via meu avô sentado na porta de sua casa ouvindo os jogos num radinho de pilha azul. Tenho a lembrança de ficar na casa dele aos domingo (ou seria sábado?), ele ouvindo o seu radinho e a gente olhando o céu para esperar a primeira estrela nascer. Esse era o trato dele conosco, assim que a primeira estrela no céu aparecesse, ele nos levaria para casa. E assim ficávamos olhando o céu, nós três. Eu perdi o hábito, mas a minha irmã até hoje faz um pedido quando a primeira estrela aparece. Essa é uma das memórias mais singelas que tenho do meu vovô Hélio. Ah, ele era flamenguista!

A minha primeira experiência no Maraca foi aos 17 anos, em 2000. Fui assistir o jogo do bi-campeonato do Mengão em cima do Vasco. Essa estreia foi muito intensa em todos os aspectos. Primeiro por ser a primeira vez e, afinal, “a primeira vez a gente nunca esquece”. Segundo por ser uma final e contra o Vasco, numa época em que, estimulado e apimentado por Eurico Miranda, esse era “o” clássico. Terceiro porque estava rodeada dos queridos amigos – que na ocasião eram recém amigos- Vlad, Ju, Clerinho e Felipe (atual maridão!) que estão comigo até hoje. Na verdade foi um sufoco, chegamos em cima da hora, ficamos entre a Raça e a Jovem, o Flamengo começou perdendo, o hino “acabou o amor, isso aqui vai virar um inferno”  foi entoado e as duas torcidas partiram para o ataque, cada um foi para um lado – lembro ainda das minhas mãos soltando as do Cleriston e o vendo se perder na multidão….saí correndo para cima e lá encontrei a Ju que chorava por conta dos amigos perdidos e queria ir embora. Logo depois Flamengo fez um gol, a paz reinou, Ju se acalmou e Flamengo foi bi-campeão!

Não poderia ser diferente, ir ao Maraca virou o programa desde então. Estava nas finais que originaram o tri em cima do Botafogo. Acompanhei de perto a arrancada do Mengão no Brasileiro em 2007, quando saiu da zona do rebaixamento para conseguir uma vaga na Libertadores. Fui a quase todos os jogos do Mengão no Brasileiro em 2008, que terminou em frustração pois não fomos à Libertadores. Estava também presente em 2009, inclusive na “final”,  quando Adriano, Pet, Andrade e companhia nos trouxeram o tão sonhado Hexa. Como nem tudo são flores, estava também na final da Copa do Brasil de 2004, quando Flamengo virou poeira diante do Santo André no Maraca. Foi frustrante pois foi sofrido desde o primeiro minuto. Sofremos para comprar os ingressos, engarrafamento para chegar, para entrar foi um caos, com direito a gás de pimenta na cara e espadada da cavalaria e, mais uma vez, amigos dispersos. Clerinho para um lado, Bernardo para outro, Rafinha, Felipe, todos engolidos pela multidão. Por sorte, olhei fixamente para um policial e fiz a cara de mais sofrida do universo e pedi: Me tira daqui! Ele literalmente me pescou na multidão e eu não sofri nenhum efeito. Naquele momento pensamos “nada pior pode acontecer hoje!”. E o Maraca tava lindo, todo tomado de vermelho e preto e o chão tremia tanto, a vibração chegava na rampa…mas nada adiantou, viramos poeira no Maraca!!! A segunda pior decepção foi a eliminação do Fla para o América do México em pleno Maracanã. Só perderíamos a vaga se perdêssemos de 3 a 0 e foi justamente isso que aconteceu! O silêncio é a melhor palavra para descrever o momento. Ninguém conseguiu verbalizar e nem dar conta do ocorrido!

Hexa!

Além das idas ao Maraca, foram muitos os churrascos para acompanhar o Mengão, as comemorações no Baixo Gávea (a melhor disparada foi a comemoração do título da Copa do Brasil de 2006, também em cima do Vasco, na qual ficamos até de manhã numa euforia só), os jogos na casa do Gustavinho, no Bambi ou Estrelato! Sempre uma excelente desculpa para encontrar os amigos flamenguistas e ver o mais querido atuar!

Alguma comemoração...

Outro fator que me fanatizou inegavelmente, foi a família do meu marido. Quando comecei a frequentá-la, não pude deixar de me impressionar com o fanatismo da Bisa, que com mais de 90 anos não perdia um jogo do Flamengo e, mesmo no final, com dificuldade de ver e de acompanhar todas as mudanças tecnológicas da TV – com tantas entradas de gols de outros times e replays, ela resmungava e comemorava duas, três, quatro vezes os gols como se fossem os primeiros -,  não abandonou essa paixão cultivada por anos, quando acompanhava o time do flamengo com o marido e as filhas em vários cantos da cidade. Pelo menos não havia jogo sem graça para ela, a cada replay, um gol! 🙂 Além da bisa, a avó foi miss Flamengo, o vovô era do Remo e Basquete – os dois frequentadores dos bailes do clube -, o sogro o sócio remido mais novo do clube. Todos tem seus próprios títulos, cds, camisa, caneta e qualquer coisa que faça referência ao Mengão! rs!

Tietando Nunes na Gávea...rs!

Um dos meus primeiros contatos com essa família rubro negra  foi  em 2001, para assitir a final entre Flamengo e Vasco. Me lembro até hoje Felipe, minha sogra, a Bisa e eu  comendo bolinho de bacalhau, já devidamente encomendado, para comemorar o fantástico tri em cima do vasco. Meu sogro e meu cunhado estavam no Maraca e viram o inesquecível gol do Pet aos 43 minutos do segundo tempo. Outra memorável atuação familiar foi ir à Gávea no dia seguinte ao Hexa, com o vovô, cunhada, sogra, sogro, marido, todos socado num carro só, ouvindo um CD de músicas do Flamengo e cantando bem alto. Chegamos tão animado na Gávea, que ganhamos até camisas por sermos “o carro mais animado que tinha entrado lá”. rs!

O melhor presente: a bandeira do Mengão assinada por amigos queridos, botafoguenses, vascaínos, tricolores e flamenguistas!

Enfim, muitas lembranças boas. Todo mundo tem um jogo inesquecível, um jogo frustrante e muitas histórias para contar. Se vale a pena? Sim, muito, cada emoção, cada abraço suado, cada coração disparado, cada grito…afinal, “Eu nasci Flamengo e sempre vou te amar. Não importa se ele perde ou ganha, eu vou cantar…”

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8 Respostas to “Futebolices”

  1. Diego Verissimo setembro 25, 2011 às 5:26 pm #

    Es-PET-acular!

    FLA-ntástico!

    Sem palavras, Rhani! Beijoca do Verissimo.

    • desconstruindorhani setembro 27, 2011 às 10:15 pm #

      hahah…adorei a brincadeira com as palavras, Diego! 😉 Saudações rubro negras! Vamos ver se embalamos agora…bjss

  2. Lilian setembro 25, 2011 às 7:22 pm #

    Rhani, adorei sua crônica / memória sobre nosso querido time.
    Alma e coração de flamenguista!!
    muitos beijos

    Lilian

  3. Rafa setembro 27, 2011 às 6:41 pm #

    Oi, querida!
    Mesmo eu que não sou uma torcedora fanática, fiquei emocionada com seu post.
    É maravilhoso lembrar tantos momentos bons que passamos juntas…é maravilhoso ser personagem das suas histórias!
    O Fabio ainda não leu mas tenho certeza que ele vai adorar.
    T amo,
    Rafa

    • desconstruindorhani setembro 27, 2011 às 10:17 pm #

      Q bom que gostou! Você só não é mais personagem porque eu me contenho! =) Acho que Fabão vai gostar!!!Ele tá lendo os posts tb? Bjsss

  4. Fátima de Lanteuil setembro 27, 2011 às 11:29 pm #

    Uma vez Flamengo, sempre Flamengo! Flamengo sempre eu hei de ser, é meu maior prazer vê-lo brilhar… VENCER, VENCER, VENCER!!!!
    É isso aí Rhani, vencendo ou perdendo somos todos flamenguistas de coração. É uma crença, uma religião!
    Adorei lembrar da Vó Elvira e sua vibração a cada gol, mesmo que replay. Hilário também lembrar dela torcendo pelo time errado pois não estava mais enxergando direito, lembra disso?

    • desconstruindorhani setembro 28, 2011 às 7:24 am #

      Foi ótimo escrever esse blog! Tanta história e memória, mas não havia espaço para colocar tudo! Só da Bisa dava para escrever um post inteiro!!! hahahha. Claro que lembro ela torcendo para o time errado! Ver jogo com ela era sempre um emoção a mais…impossível esquecer a cena dela enconstada na TV para ver os jogos!!! Muitas saudades!!!!

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