Museu da Infância

24 mai

Recentemente, meio que por acaso, visitei o Museu da Infância (V&A Museum of Childhood) daqui de Londres. Já havia ouvido falar sobre esse museu, mas como ele fica do lado leste da cidade, longe da área onde moro e circulo mais, nunca havia tido a oportunidade de visitá-lo. Mas estava turistando outro dia com uma amiga, tentando chegar num dos mercados do Leste – o Broadway Market – quando nos deparamos com o Museu da Infância. É claro que paramos nele, afinal, estava um tempo londrino daqueles, o museu é gratuito e a temática bem atrativa para duas psicólogas de formação.

Foto Ricardo Acioli

E é claro que amei o museu. Ele não é grande e está longe de ser um dos museus imperdíveis e principais de Londres, como alguns que já citei aqui. Mas, acho uma boa pedida para quem mora na cidade ou para quem já esteve em Londres por muitas vezes e já viu o clássico. Também pode ser bem interessante para quem estiver com crianças, assim como o Museu de História Natural e o de Ciência, também atrativos para o público infanto-juvenil. O melhor é que enquanto as crianças se divertam, os pais também se divertem relembrando e conhecendo mais sobre os brinquedos de sua infância.

Foto Ricardo Acioli

O acervo é riquíssimo, com objetos desde 1600 até os dias de hoje. É legal ver a história da infância pelos seus artefatos. Lembrei das aulas de psicologia do desenvolvimento, da Professora Lúcia Rabello, na qual discutíamos o conceito de infância. Há um momento histórico no qual essa fase passou a receber atenção especial, passando a ser alvo de diversos saberes. Por muito tempo, não existia uma demarcação clara entre a vida adulta e a infantil, e a criança era vista como quase um adulto em miniatura.

Parquinho de areia dentro do museu para os pequenos!

O interessante – que o museu aborda também – é que a infância continua se modificando, não só por conta da revolução digital, como também por conta do processo de urbanização pelo qual o mundo inteiro está passando. As cidades estão maiores do que nunca e, com isso, problemas ligados ao urbano tem afetado muito o “ser criança”, que hoje vive muito mais dentro de espaços fechados, uma vez que a rua virou sinônimo do lugar do desconhecido, do perigo, do medo, onde ninguém conhece ninguém e ninguém confia em ninguém.  Então, seja no Rio de Janeiro ou Londres, a brincadeira de rua, os amigos de ruas, a vizinhança conhecida, em uma certa medida, já não fazem mais parte da sociabilidade do tempo atual, o que deixa alguns mais velhos nostágicos sobre o tempo em que se podia brincar na rua descalço; ou outros apavorados sobre o que fazer com os filhos vidrados em computador, videogame e TV e uma série de problemas vinculados a isso, como obesidade infantil. Outros “novos perigos” ligados à infância são o consumismo desenfreado, a sexualização e a transformação deles em pequenos adultos…(Será que estamos retornando ao passado?). Enfim, pano pra manga essa discussão, né?

Foto Ricardo Acioli

Gostei também de ver que alguns brinquedos são atemporais, como o peão e também sobre a eterna divisão de sexos relativa ao brincar. Brinquedos do século 17  já demarcavam bem a diferença entre os sexos – os brinquedos femininos voltados para a vida doméstica, como ferro de passar, panelinhas, carrinho de bebê, por exemplo, e os masculinos ligados a alguma ação qualquer (bola, carrinho, etc). Acho que isso se perdura até hoje! Eu, massificada pelos brinquedos femininos que me deram a vida inteira, adorei as lindas casas de bonecas.rs! Parecem obras de arte e não só, são interessantíssimas para entendermos a vida privada do século 17, 18 e 19…

Bem, para quem se interessar, a estação de metrô do museu é Bethnal Green. Mais instruções como chegar aqui.

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E lá se vai 1 ano…

16 mai

Hoje faz 1 ano que esse blog existe. O engraçado é que eu mesma não acreditava que conseguiria escrever tanta coisa aqui. Pensei que seria algo “fogo de palha” e que logo, logo o abandonaria. Mas eis que estou aqui, atolada que só, mas me desdobrando para escrever nesse espaço com certa frequencia.

Ainda não descobri o propósito desse blog e muito  menos quem o  lê e por que lê. Embora eu faça um esforço para postar coisas de interesse público, sei que caio também no pessoal, deixando escapar uma homenagem aqui e acolá ou um sentimento  saudosista vez por outra.

Mas acho que o próprio formato de blog é  convidativo à parcialidade, afinal, é escrito em primeira pessoa e fica muito difícil fugir da experiência pessoal. Aliás, é justamente por esse motivo que gosto de ler blogs, pois consigo ver as pessoas, o que elas pensam, as suas experiências com viagens, pessoas, com as diferentes fases da vida, com a sociedade. Acho mais transparente, já que desde o começo sabemos de qual lugar aquele escritor está partindo. Diferente do texto jornalístico que, em nome da tal falada imparcialidade, às vezes fica difícil de identificar as verdadeiras intenções do autor ao escrever determinada matéria (o pior é que muitas vezes consumimos aquilo como se realmente fosse algo neutro, quando na verdade não é!!!)

Por esses motivos e outros, tenho gostado tanto de escrever aqui. Esse, afinal, é um espaço meu, onde posso escrever livremente, sem muitas amarras, já que não é um blog profissional e, portanto, posso me dar o direito de postar sem revisão, cometer erros de português e pontuação sem muito dó, afinal, o objetivo maior é comunicar. Além disso, aqui não preciso referenciar nada, parte que mais amo!!! Desde 2006 estou envolvida com pesquisa acadêmica, fui bolsista CNPq, participei de dois grandes projetos de pesquisa, o que me rendeu artigos, congressos, relatórios científicos, etc. Hoje estou no mestrado, nas mesmas condições, mas um pouquinho pior, pois tenho que escrever em inglês, o que me toma horas e horas, fazendo com que a minha produção caia pela metade!!!  E quem é do mundo acadêmico sabe o quão chato é escrever academicamente. A escrita é muito rígida, fechada, com pouco espaço para a invenção. TUDO precisa ser referenciado, citado, justificado e explicado…ufa! Então, prazer maior do que escrever sem compromisso não há!

Entretanto, nem tudos são flores e a minha relação com esse espaço aqui é conflituosa. Realmente me pergunto todos os dias o porquê dessa minha necessidade de compartilhar o meu cotidiano com tantos desconhecidos, já que uma vez que tá na rede, não se tem mais controle algum. O problema que o conteúdo que está aqui exposto é a minha história, é a minha imagem, a minha visão de mundo que não quero impor a ninguém e muito menos normatizar nada…

Enfim, mas cheguei a algumas conclusões. Acho que a principal é a minha necessidade de não perder contato com o Brasil. Acho que tenho medo de me tornar aquelas pessoas que saíram do Brasil e nunca mais ninguém soube delas. Acho que o blog é uma tentativa de manter vínculos, compartilhar experiências, quase um pedido de “não esqueçam de mim”, “olha o que eu estou fazendo”…

Resumindo, na impossibilidade de um encontro no real, eu me encontro aqui no virtual com tantos queridos, com o meu país, com a minha língua e comigo mesma, que na medida em que escreve tenta dar conta, por um lado, da constante falta, ausência e saudade e, por outro, do encantamento e surpresa diante de um mundo novo, que na verdade é velho e por isso mesmo tão interessante aos meus olhos!

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Uma vida no campo (Interior da França – Parte 2)!

12 mai

No post anterior descrevi o nosso percurso pelas cidades que tinham relação com a família do meu marido. Nesse post falo de outras cidades lindíssimas pelas quais passamos nessa viagem de 1 semana pelo interior francês, riquíssimo em história, castelos medievais e boa comida, apesar de não ser tão conhecido.

Vacas do Limosin

Collonges-la-Rouge é uma cidade fundada no século 8. Ela é mais uma dessas cidades pequeninas por qual passamos. Porém, o que impressiona e a diferencia das outras é a sua arquitetura. Ela é toda vermelha! No dia em que fomos lá, o cenário estava perfeito por conta do contraste das cores provocado pelo vermelho das casas, o céu azul, o mato verdinho ao redor e um sol brilhante. O tempo estava tão divino, que almoçamos ao ar livre, sem pressa alguma.

Collanges-la-Rouge

Almocinho delícia ao ar livre em Collonges

Turenne é uma cidade medieval localizada na encosta de um penhasco. Ela foi o último feudo independente da França, pertencendo à família La Tour até 1738. Já na estrada, é possível vê-la no alto do morro e o que sobrou do castelo de Turenne. No guia da Folha de São Paulo, ela é considerada a cidade medieval mais atraente da Corrèze, embora não seja tão visitada como Collanges. Visitamos as ruínas do castelo, onde se tem uma linda vista do entorno. Bem, não sei se ela é a mais atraente, mas acho que com certeza vale a visita.

Turenne

Turenne

Sarlat-la-Caneda é uma jóia. Ela possui a maior concentração de fachadas medievais, renascentistas e do século 17 dentre as cidades francesas, sendo basicamente um museu ao ar livre. E ela impressiona mesmo! Nos programamos para visitá-la no sábado, quando acontece um mega mercado ao ar livre, famoso por ser um dos melhores do país. Infelizmente choveu muito nesse dia e não pudemos aproveitar a cidade em sua potencialidade, mas mesmo assim foi sensacional.

Sarlat

Rocamadour é uma cidade de peregrinação desde 1166, quando um corpo ainda conservado foi achado num túmulo. Diz a lenda que uma série de milagres teriam acontecido sobre a Virgem Negra e o Menino na capela da cidade após essa descoberta.

Virgem negra/ foto Ricardo Acioli

Desde então a cidade virou rota de perigrinação, atraindo andarilhos do mundo inteiro. A cidade em si é bem bonita, pois fica encrustada na pedra. É legal vê-la de longe, para se ter uma ideia sobre a sua construção peculiar. A melhor vista é da aldeia L’Hospitalet, dica que pegamos num guia turístico.

Rocamadour/ Foto Ricardo Acioli

La Roque-Gageac é uma cidadezinha que impressiona. Ela fica na beira do rio e parece talhada na pedra. O cenário é lindíssimo, o rio, o castelo e a cidade na pedra! Acredita-se que essa cidade é habitada desde os tempos pre-históricos! O nosso único lamento foi de não ter podido ficar mais tempo nela, pois o dia reservado para a sua visita foi um dia com um tempo terrível, o que prejudicou a nossa programação. Já chegamos nela no fim da tarde e ainda com uma cidade para conhecer. Mas tudo bem, sempre é bom ter motivos para voltar!!=)

La Roque Gageac

Visitamos também um dos mais importantes castelos da região da Dordogne, o Castelo de Benyac. Esse castelo impressiona por se localizar estrategicamente num alto de uma montanha. De longe, já se pode vê-lo, imponente. E o castelo em si é bem bonito, pode-se visitar parte dele, já que uma outra parte é habitado (chocante, né?). E a vista que se tem de lá em cima é de tirar o fôlego! De lá, avistam-se outros castelos, além do lindo serpentear do rio Dordogne. O castelo já foi locação de vários filmes, como o Joana D’Arc de Luc Besson e Chocolate (somente a sua vila).

Chateau Beynac/ Foto Ricardo Acioli

Um outro ponto alto da viagem foi a visita a Lascoux II. Lascaux é um conjunto de cavernas no qual foram encontrado pinturas paleolíticas de nada menos que 17.000 anos atrás. Ela foi descoberda na década de 40, porém, por conta do gás carbônico liberado pela respiração humana, as pinturas começaram a se danificar. Então, desde 1963, Lascoux é fechada ao público. Entretanto, uma enorme réplica bem fiel à original – Lascaux II – foi criada e aberta ao público em 1983 para que pessoas do mundo inteiro pudessem apreciar as impressionantes pinturas. Achei que fosse encontrar desenhos pequenos, pobres em detalhes, monocromáticos, mas não. As pinturas são coloridas e enormes! Há várias teorias sobre qual seria o propósito de Lascaux para o seu tempo e uma delas acredita que o local era um lugar de rituais com o objetivo de atrair uma boa época de caça. Outros acreditam que aquelas pinturas tinham como objetivo registrar estratégias de caça bem sucedidas. Enfim, ninguém sabe ao certo o que Lascaux era, mas que aquelas pinturas foram feitas pelos VanGoghs, Picassos, Da Vincis da “era das cavernas”, isso sim!

Montinhac – cidade na qual se compra o ingresso para Lascaux II/Infelizmente não se podia fotografar a gruta, mesmo sendo uma réplica.

Domme é uma cidadezinha medieval fortificada localizada em cima de uma falésia. Mais uma vez, o mesmo cenário. Ruas de comércio medievais, o rio Dordogne ao fundo e restaurantezinhos charmosos. Assim fica difícil de não se apaixonar pela França!

Domme

No nosso caminho entre uma cidade e outra, paramos em Gluges, cidade que não tem nada, a não ser uma igrejinha que Edith Piaf ajudava e passava férias.

Almoçamos também em Beaulieu-sur-dordogne, cidade bem agradável, com casas antiguíssimas e margeada pelo rio Dordogne. Vale à pena caminhar até as suas margens!

Pintura!

Paramos em Curemonte para ver por fora os seus dois castelos.

Fomos a Uzerche, que apesar de ser recomendada, não tivemos uma boa química com ela. Chegamos num domingo lá, estava tudo fechado e realmente não conseguimos nos impressionar com esta cidade, que dizem ter uma vista incrível por conta dos telhados cinzas de ardósia das casas na colina.

Por fim, visitamos também o Castelo de Pompadour. Ele é bonito, mas depois de tanta coisa linda, já estávamos meio vacinados e também cansados, que também não nos empolgamos. O legal da área são os cavalos, já que há um enorme haras em frente (e dentro do castelo também) e também o caminho para acessá-lo, passando pela rota das maças.

Rota das maças

Bem, para terminar, finalizo com um comentário sobre a comida regional. As comidas típicas dessas regiões são os cogumelhos setas e girolles, o fois gras (patê de ganso), pato e as trufas negras. A cada cantinho que íamos, era todo aquele ritual culinário francês com pão, vinho, entrada, prato principal, sobremesa e café. Nem preciso dizer que nos acabamos também no turismo culinário, que faz parte da cultura e turismo francês!

Li que a região está em decadência com a migração da população para as cidades em busca de melhores oportunidades e o declínio do modo de vida camponês, tendência do nosso tempo. Mas foi inevitável não pensar que uma casa no campo – para esticar as pernas quando elas estiverem pesadas com a idade, com um chá ao lado, vendo a vida passar olhando para um vale qualquer, com um rio serpenteando ao fundo – não ia ser nada mal!!! Será que estou virando inglesa e já sonhando com o “countryside”? hahahha. Eu hein, sai pra lá! =)

Esse é o mapa com as cidades pelas quais passamos:


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Os de Lagaye e de Lanteuil – parte 1

2 mai

Nesse mês fizemos uma viagem muio especial de 1 semana pelo interior da França. O objetivo principal, na verdade, era conhecer as terras dos antepassados da família do Felipe. O meu sogro já  havia visitado essa parte da França duas vezes, pois ele é fissurado em história em geral, e não podia ser diferente em se tratando da própria família. Então, ele quis reunir os filhos para mostrar da onde parte da família deles vieram. E, eu, como sou uma de Lanteuil agora, “entrei de gaiato nesse navio”…rs!

Por conta disso, fomos a cidades nada turísticas, bem pequeninas, algumas com somente quatro casas e um tanto quanto fantasmas. Mas também aproveitamos para conhecer as cidadezinhas da redondeza recomendadas pelos guias turísticos. Na verdade, essa viagem superou qualquer expectativa. Lembro que o Felipe comentou com uma colega de trabalho francesa que estava indo para essas regiões e ela ficou chocada “Mas o que vocês vão fazer lá, não tem nada!”. Ledo engano! As regiões que visitamos são cheias de história pra contar, castelos e cidades medievais, comida caseira divina (do interiô!), rios e cidades encrustadas na pedra.

Bem, começo com uma breve histórico da família para depois entrar no roteiro em si. Os sobrenomes do Felipe são “de Lagaye” e “de Lanteuil”. Esses “de” significam que eles vieram de famílias nobres, já que trazem os nomes das terras que pertenciam à família. Nobres de coração, eu já sabia que eram há muito tempo, então não foi nenhuma surpresa isso! =)

Bem, como não dá para recapitular toda a genealogia da família, registro aqui a parte na qual as famílias Gaye (que virou “de La Gaye” e depois “de Lagaye” ao longo dos anos) e Lanteuil se uniram.

“Os senhores de Lagaye”

Em 1550, a família Gaye habita o Castelo de Gaye, em Lostanges, na Corrèze. Por volta de 1580, Pierre de Gaye ganha um título de nobreza ao se tornar “Conseiller Sécretaire” do rei Henri IV. Porém, foi somente em 1683 que Pierre Gabriel de Gaye – neto de Pierre de Gaye –  adquire Lanteuil através do casamento com Jeanne d’Estresses. Jeanne d’Estresses possuía Lanteuil por conta de uma herança deixada por sua mãe, a Madeleine de Mirandol. O filho deles, Raymond de La Gaye era Visconde de Lanteuil.

Eis a prova de nobreza da família!

Os netos de Raymond de La Gaye, Pierre Charles Hubert – Visconde de Lanteuil na ocasião – e François, emigram para lutar nos exércitos realistas na Suíça durante a Revolução de 1792 . Seus bens em La Gaye e Lanteuil são confiscados.  Pierre Charles Hubert morre no combate e François torna-se Visconde e, depois da restauração da monarquia francesa em 1815, torna-se Conde, recuperando as propriedades de La Gaye e Lanteuil. Ele volta a morar em La Gaye, virando prefeito de Lostanges.

Brasão de Lostanges – detalhe que esse rapaz da foto é um dos antepassados e se parece bastante com um tio. Ficamos impressionados com as semelhanças!!!rs!

Seus filhos, Alphonse e Hippolyte, são os últimos a nascerem em La Gaye. Eles moram lá até a morte do pai, em 1848, quando se mudam para Clemont-Ferrand, no Auvergne, para morar na fazenda Le Monteix (hoje, Le Montet) em Condat-en Combraille, onde em 1894 nasce Henri de Lanteuil, bisavô do Felipe. 

A foto está péssima, mas dá para ver o brasão da cidade de Lanteuil

O bisavô do Felipe – Henri de Lanteuil – lutou na Primeira Guerra Mundial. Ele estava num covento para ser padre quando foi convocado para lutar nas trincheiras. Ele ficou alguns anos lá, até que decidiu seguir para o Brasil numa missão religiosa. Já na Espanha, a sua mãe alcançou-o para tentar convencê-lo a voltar, mas não teve jeito, o destino era Brasil mesmo. Ele partiu, então, rumo ao Brasil , mas chegando em Cananéia, São Paulo, se desencantou com a vida religiosa, abandonou o grupo e foi para o Rio, onde conheceu uma bonita brasileira, dando, assim,  início ao ramo brasileiro dos “de Lagaye de Lanteuil”.

Ufa, depois dessa sessão de história na veia, vamos ao roteiro. Focamos nas regiões Corrèze, Dordogne, Lot e Haute-Vienne. Infelizmente não conseguimos ir à região do Auvergne ver uns vitrais de umas igrejas do trisavô do Felipe, o Hippolyte, por ficar muito longe da onde estávamos.
Ficamos hospedados em Brive-la-Gaillarde, que é a cidade mais populosa da Corrèze, com cerca de 50 mil habitantes. De lá, partíamos todos os dias para visitar as cidades do entorno. Carro é essencial para conhecer essa região.

Brive-la-gaillard

Vou começar pelas cidades que tem relação com a família.  Começamos por Lostanges, cidade na qual La Gaye faz parte. Lostanges é uma cidade com cerca de 130 pessoas. Mas na prática, é quase uma cidade fantasma. Chegamos lá com o objetivo de conhecer uma igreja do século XII – construída no lugar de uma antiga fortaleza – e também a associação dos amigos de Lostanges, onde se encontram documentos históricos sobre as famílias da região, inclusive da família La Gaye. Batemos na casa de uma senhora que nos abriu a igrejinha, que tem um retábulo muito bonito, recém restaurado. Ela simpaticamente chamou um outro senhor, que abriu a Assossiação para a gente. Lá, vimos a pasta com as cópias dos documentos sobre a família La Gaye (títulos de nobreza, certidões de casamento, nascimento, etc).  O próximo ponto de interesse era La Gaye, vilarejo de Lostange, para onde partimos logo em seguida.

Lostanges

Em La Gaye, o objetivo era ver as ruínas do castelo da família, que foi destruído na época da revolução francesa e as suas pedras, roubadas para a construção de casas na área. La gaye é minúsculo, tem apenas 4 casas. Assim que chegamos uma senhora de uma outra casa apareceu para perguntar o que queríamos (afinal, quantas pessoas passam por lá por dia?) e aproveitou para oferecer a casa dela, construída com as pedras do antigo castelo, que estava à venda. Tentamos em vão contactar alguém da casa onde as ruínas do castelo se encontram, mas não obtivemos nenhuma resposta, infelizmente.
Visitamos também o Castelo D’Estresses, que pertencia a Jeanne d’Estresses, também ancestral da família. O castelo abriu recentemente à visitação. E o tour foi super legal e bem pessoal. O atual dono faz o tour, explicando detalhes de sua construção, como a sua família adquiriu o castelo, algumas curiosidades da história dele (no pós-revolução, o castelo foi dividido e chegou a pertencer a 3 famílias diferentes, visto as dificuldades para mantê-lo). O tour foi bem longo, já que o dono do castelo parecia bem empolgado e apaixonado por aquilo que estava fazendo. A sua esposa, prefeita de Astaillac, veio depois nos cumprimentar, acompanhando parte do tour, e esbanjou simpatia como o seu marido.

Chateau d’Estresses

Chateau d’Estresses

Lanteuil também foi emocionante conhecer, a família estava muito empolgada. A cidade também é bem pequena, mas maior que Lostanges e La Gaye. Ela tem por volta de 500 habitantes e uma igrejinha do século XV. Há também o castelo de Lanteuil, que um dia foi da família, que se desfez dele quando se mudaram para o Auvergne
Ele estava fechado, então não rolou de ir lá bater na cara de pau e pedir para conhecê-lo por dentro. Mas conseguimos ver a igreja. Assim que chegamos, fomos abordados pelo presidente da associação folclórica e o prefeito da cidade. E eles foram uma simpatia! Abriram a igreja para a gente e nos levou à prefeitura.  O prefeito, ainda, nos levou em sua casa para conhecermos a sua cave (adega) do século 16. Quanta gentileza! Só faltou mesmo abrir um vinho e tomar com a gente… rs! Voltamos a Lanteuil uma segunda vez para almoçar lá e comprar algumas souvenirs e não nos arrependemos. Paramos num restaurante familiar local (Lanteuillois) e comemos uma comidinha super ultra caseira honestíssima, boa e barata. As cidades são tão pequenas que os prefeitos parecem síndicos, totalmente acesssíveis.
No mais, demos uma parada em Martel, a cidade das 7 torres, para ver as torres de Tournemire e Mirandol, de famílias ancestrais. Fomos num domingo de Páscoa e a cidade estava bem vaziinha, então foi uma parada bem rápida.
Martel - foto internet
E ainda vimos o Castelo de Mirandol, que se localiza numa propriedade privada, mas mesmo assim entramos nela para perguntar se podíamos vê-lo. E, mesmo receosos de sermos mal recebidos, conseguimos chegar no castelo! Ele estava alugado para uma outra família, que nos permitiu tirar uma foto de fora.

Mirandol

Bem, esse foi o roteiro familiar. No outro post, escreverei sobre as outras lindas cidades que visitamos não relacionadas à família e, vamos dizer assim, mais turísticas.
Informações práticas:
- nesse site, feito por um “de Lagaye de Lanteuil” do ramo francês, podem ser encontradas informações mais detalhadas sobre a família: http://mapage.noos.fr/ddel/histoire/histoire.htm
- ficamos num hotel em Brive duas estrelas bem bom, chamado Ace.
- eu não sou especialista na história da família, então posso ter confundido algo. Aliás, só consegui escrever esse post graças ao sogrão, o verdadeiro entendedor. Então, muitas das coisas que escrevi aqui são falas e histórias vindas dele, que estudou, pesquisou e ouviu da própria boca do seu avô, o Henri.

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Singin’ In The Rain e outros musicais

15 abr

Ja falei nesse post aqui o quanto adoro musicais. E sempre quando recebo visitas é uma ótima desculpa para ver um novo. Como disse antes, sempre há umas furadas, uns musicais com produções fracas, caros e misturados com os grandes e sendo vendidos no mesmo valor. Então, sempre é bom dar uma pesquisada antes de comprar.

Nesse post vou falar sobre os últimos musicais que vi, começando pelo Singin’ in the rain, que vi nessa última sexta-feira. O show me surpreendeu. A peça estreou esse ano, é uma produção nova e está lindíssima. É um espetáculo bem humorado, que faz você sair da peça querendo dançar e pisar em todas as poças de chuva da cidade! E o ritmo da peça é muito bom. Tem uma crescente, a peça vai ganhando força ao longo do tempo. E a cena clássica imortalizada por Gene kelly na qual ele dança e canta feliz na chuva no cinema, não deixa a desejar no teatro. Achei que ia ser uma chuvinha mixuruca, ou falsa, mas não imaginava que ia cair um temporal no palco, com direito a cheirinho de chuva e tudo. Essa cena ganha qualquer um. E a platéia vibra com o musical. Como disse no post anterior, amo o musical Wicked, já vi duas vezes e para mim é um dos mais lindos que assisti. Mas acho que o Singin’ in the rain entrou no páreo sério…

Priscilla foi um outro musical que vi e gostei bastante. Ele não está mais em cartaz em Londres, mas valeu a pena ter ido com meus pais assistir essa peça. Meus pais não falam nada de inglês, então Priscilla foi uma excelente opção, pois as músicas são conhecidas, a peça é divertida e alegre e tem figurino e cenário suntuosos. A peça está em São Paulo agora e eu li que infelizmente ela não poderia ir ao Rio porque não havia teatro que comportasse a sua enorme estrutura. Uma pena! Mas quem estiver em São Paulo, vale a pena conferir!

Chicago foi uma completa decepção. Pesquisei, pesquisei, pesquisei um musical para ir com a minha irmã e errei feio. A peça é chatíssima, cenário parado o tempo todo, os números musicais fracos…acho que foi a pior peça que vi aqui. E não foi só uma percepção minha, as quatro pessoas que estavam comigo não gostaram também.

Ano passado o Fantasma da Ópera completou 25 anos que está em cartaz. Essa peça tem uma legião de fãs no mundo inteiro e pessoas que já assistiram mais de mil vezes esse musical. Quem sou eu para dizer qualquer coisa né? Achei lindo, amo as músicas, mas acho que prefiro as produções novas, em alguns momentos me cansou um pouco e achei meio brega…hahahha…podem me matar!!!!

Mágico de Oz foi outro musical que vi e gostei. Adoro a história, as músicas e o cenário está lindíssimo, parece pintura. Mas ainda sim prefiro o lado B da história, contada em Wicked pela bruxa verde do Oeste.

The Mousetrap é uma peça que está em cartaz no West End há 60 anos! Não é exatamente um musical, mas sim uma peça da Agatha Christie. Quem é leitor da Agatha Christie sabe que a peça gira em torno de um assassinato e o suspense sobre quem é o assassino fica no ar até o último minuto. A cada momento desconfiamos de alguém e o final sempre é surpreendente (ninguém que estava comigo acertou quem era o assassino). Mas como é uma peça e o foco está no texto, só vale a pena ir quem entende inglês. Caso contrário, é melhor ir a um musical, pois tem outros recursos para entreter, como as danças, músicas e cenários.

Para comprar os ingressos, eu sempre olho o site http://www.lastminute.com/ para pesquisar as promoções ou compro em alguma das lojas da Leiceister Square que oferecem ingressos com desconto para o dia da peça. Gosto da loja Tckts, que fica bem no meio da praça.

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Paris, mon amour!

2 abr

Paris é uma daquelas cidades que dispensa maiores apresentações. Acho que deve ser a cidade mais turística do mundo, de repente não em volume de turista, mas em divulgação. Quantos filmes, livros não tiveram como palco a Cidade da Luz? Paris habita no imaginário mundial como a cidade do romantismo, do amor, da poesia, do refinamento, da arte…então ir à Paris pela primeira vez foi estranho. Tive a sensação de déjà vu, parecia realmente que estava apenas reencontrando aqueles monumentos e ruas que vi tantas vezes em fotos e em filmes, e não sendo apresentada pela primeira vez à cidade.

Parafraseando uma amiga minha, a Julinha, Paris é o melhor clichê do mundo. Adorei passear pelo Sena, assistir o pôr-do-sol na Sacre Coeur, avistar a Notre Dame, ver a torre Eiffel de muitos ângulos, me impressionar com o tamanho dos Arcos do Triunfo, amar o jardim do Rodin, ver as padarias com filas e um bando de franceses carregando o seu vício – o pão -, as lojinhas de queijos e de vinhos, os muitos bistrôs, as barracaquinhas de crepe com nutela, etc.

Pont des arts

Paris é monumental, claramente uma cidade planejada, com vias largas e edifícios gigantes e suntuosos. Londres é apertada, bem industrial mesmo e isso me chamou a atenção, os espaços. Londres é dos parques (que no passado eram locais de caça), então são mais rústico e grandes. Paris é das praças e jardins, com aquelas cadeirinhas, chafarizes e estátuas. E lá eu entendi perfeitamente a expressão “ver a moda passar”. As mesas dos cafés ficam todas alinhadas voltadas para a rua, parecendo uma arquibancada, uma fila de cinema, e o pedestre é o filme, a atração, a moda passando…

Jardim de Tuileries


Ficamos pouco tempo na cidade, apenas um fim de semana prolongado, o que é bem pouco se você quiser visitar todas as atrações da cidade, que são inesgotáveis. Geralmente, todo munda fala que se você não tiver muitos dias em Paris, para não entrar no Louvre. Mas eu não queria deixar de entrar num dos maiores museus do mundo de jeito algum. E foi tão simples de entrar. Chegamos lá na hora sem ingresso e esperamos somente 10 minutos para acessá-lo. E valeu muio a pena. De fora, o Louvre já impressiona, pelo tamanho do prédio. O Louvre é o maior palácio da Europa e o segundo maior prédio do continente em área construída (perde para um da Romênia). O valor do ticket é bem honesto, 10 euros, comparando com os museus de Florença e Barcelona, que são bem carinhos. Reservamos o domingo chuvoso para passar lá dentro. O próprio museu fornece um folheto informativo indicando as obras mais importantes.

Louvre

Louvre

O encontro com a Monalisa foi desconfortante. É chocante ver a multidão que se aglomera ao redor do quadro para tirar uma foto com ela. Nem estou dizendo que ela não merece, pois realmente não entendo de arte a ponto de dizer sobre seu valor artístico. Mas com certeza deve ter um contexto histórico que a fez ficar tão famosa. Uma amiga me disse que ela sempre foi famosa, mas ficou bem mais depois que foi roubada do Louvre. Mas ver os outros quadros abandonadinhos e a Monalisa como a pop star do museu me incomodou. Obviamente eu garanti também a minha foto com a Monalisa, por via da dúvidas, como a massa, mas não há como negar que a Monalisa é um produto. A gente tira foto dela antes mesmo de tentar vê-la e apreciá-la enquanto objeto de arte. E aí vem aquela história recorrente sobre o que é arte, quem determina se uma coisa é arte ou não, a passividade do espectador diante da obra, como determinar o valor que uma obra tem, quem determina isso…e por aí vai.

Monalisa pop star

Bairro que eu adorei foi Montmartre, onde se localiza a lindíssima Sacre Coeur. Fomos para lá ver o pôr-do-sol e Paris de cima. Tinha uma multidão de turistas lá na escadaria fazendo o mesmo, e rolou até um Michel Teló, para acabar com todo o glamour Parisiense, mas tudo bem.;) Estávamos na casa de uns amigos que moram em Paris e a minha amiga se encontrou com a gente lá para fazermos um happy hour num “pé-sujo” de vinhos, tudo que queríamos e precisávamos depois de um dia intenso de andanças. Na frente, é uma loja de vinhos e nos fundos tem umas poucas mesas, um balcão e um banheiro precário. Como não precisamos mais do que isso mesmo, tomamos uns bons vinhos lá e comemos frios e queijos deliciosos num preço camarada. O local se chama La Cave des Abbesses, em Montmartre mesmo.

Basílica de Sacre Coeur

No mesmo dia, esticamos num bar bem legal em Belleville, bairro onde abriga uma grande comunidade chinesa. Este bairro fica no 20 arrondissement, não é perto do Centro e pesquisando para escrever este post, descobri que foi nesse bairro que Edith Piaf nasceu e que o bairro é um pouco estigmatizado por ser no passado uma área de imigrantes e pobre da cidade. Atualmente, ele está virando um bairro cool, já que artistas de todos os tipos tem se mudado para lá, em busca de preços menos inflacionados e também por conta da diversidade do local. Achei essa reportagem da revista Boa Viagem bem interessante sobre o bairro. Nela, quem tiver interesse, se pode encontrar informações mais detalhadas:  http://oglobo.globo.com/boa-viagem/cores-do-mundo-nas-ruas-de-belleville-bairro-de-edith-piaf-4105791 (pena que encontrei essa reportagem depois, pois fiquei com muita vontade de explorar o bairro melhor). Enfim, fomos a um bar bem interessante lá chamado Mon café chérie. O bar era aberto, com mesas do lado de fora e pessoas em pé papeando, e dentro rolava um DJ excelente, tocando músicas alternativas. Nada como estar com “nativos” para conhecer esse lugareszinhos.

Mon Café Chérri

Ficamos hospedados na Bastille – quem não lembra da “Queda da Bastilha”, um dos eventos que marca o início da Revolução Francesa que somos obrigados a estudar em História? – sim, é ela, antes prisão, hoje uma praça. Pegamos uma manifestação da esquerda lá (claro!). Parece que o SarKozy está com um discurso bem radical, se aproximando da extrema direita para angariar votos. Isso é motivo de preocupação para os imigrantes do país, que provavelmente sofrerão com a plataforma de governo conservadora e o temor de que a França caminhe para um ‘fascismo’ é crescente. Li essa coluna outro dia que apresenta um olhar sobre a situação política atual francesa: http://colunas.revistaepoca.globo.com/mulher7por7/2012/03/17/xenofobia-o-grande-mal-da-franca-e-porque-o-brasil-deve-tomar-cuidado/

Na praça da Bastille

Bem, para completar toda a experiência intensa que tivemos no fim de semana prolongado, ainda fomos recebidos maravilhosamente bem pelo super casal gênio, que tornou a nossa viagem muito melhor!

Casal gênio.

Momento Marilyn em frente ao Molin Rouge.

Para quem está em Londres, vale a pena dar uma olhada no site da Eurostar. O trem liga o centro de Londres ao centro de Paris em apenas 2h15min. É muito conveniente, já que aeroportos geralmente são mais afastados do centro e sempre se perde tempo e dinheiro para acessá-los, sem contar toda aquela burocracia de aeroporto (segurança, check-in, etc). Sempre tem promoção, pegamos uma na qual os tickets estavam custando apenas 59 libras ida e volta!!!

O avental todo sujo de ovo…

27 mar

A ideia do blog não era se tornar um local de homenagens sem fim a pessoas importantes em minha vida. Mas acontece que viver longe me “revelou” um outro lado das minhas muitas facetas, que é a capacidade de me emocionar e amar ainda mais as pessoas. E como eu fiz “homenagens” públicas para o papi e a irmana, não podia faltar a dela, a abelha rainha. Prometo que páro com isso em breve antes que a paciência de vocês acabe com tanta melosidade (a minha já está se esgotando!) =)

Estava conversando um dia com a minha irmã sobre maternidade e ela me falou uma coisa que me impressionou, não pelo conteúdo da fala, que é um tanto quanto óbvio, mas pela constatação de que ela havia virado mãe, um caminho sem volta! Ela me contou que sempre quando via um acidente, ou uma notícia ruim no jornal, ela rezava e pedia a Deus que a livrasse daquele mal. Depois que ela teve filho, ela me disse que nunca mais conseguiu pedir para si própria, só para ele e por ele.  Caramba, que amor é esse que desconhece qualquer vaidade, orgulho, egoísmo, amor próprio (facetas nossas que tentamos esconder, mas insitem em povoar a nossa mente, mesmo que as reprimimos em prol do politicamente correto)?  Esse é o o amor de mãe (e pai!) na maioria das vezes – para não normatizar muito esses papéis -, que só conhece doação e amor sem medida!

Acontece que a gente nasce na perspectiva de filho e somente muito tempo depois vamos reconhecer e entender o quanto de doação, investimento (não financeiro, mas emocional mesmo) e renúncia existe na nossa relação com os nossos pais. Foram sonhos deixados para trás, horas a mais trabalhadas, noites mal dormidas por conta de uma doença ou outra, noites não dormidas pela falta de notícia, celebração de cada pequena conquista nossa. E tudo isso sem fórmula, sem manual, aprendem a ser pais na experiência, enquanto administram os outros importantíssimos papéis como o de esposa (o), de mulher (homem), de filho, de profissional…e um dia ainda ouvirão, de repente no auge da adolescência, ainda que da boca para fora, que foram culpados pela infelicidade dos filhos! É mole? A rapadura é doce, mas é dura pra caramba!!!

E vai perguntar se não valeu a pena? Uma vez minha mãe me disse que metade das coisas que ela conseguiu, ela não teria alcançado se não tivesse alguém para lutar por. E é nela mesmo que eu queria chegar. Dona Eva. Nascida depois de Cosme Damião, Damião e Adão, alguns dos seus muitos irmãos. Na mito bíblico fundador, Eva levou Adão a morder a maça proibida, fundando a humanidade no pecado. Danada essa Eva!

Como na história mitológica, ela não se contentou em somente viver no paraíso com Adão, ela queria mais. E foi isso que ela fez. Caçula de 10 irmãos de uma família bem humilde, ela não aceitou o destino que lhe esperava de ser esposa e criada para o lar. Meu avô não permitia que as mulheres estudassem, só os homens. Mas ela não se conformou e decidiu aos trancos e barrancos continuar. Começou a trabalhar com 9 anos e fez de um tudo. Carregou balde d’água, bolsas de compras  na feira, foi empregada doméstica, professora, secretária de político, vendedora de batata frita e dona de casa, não necessariamente nessa ordem. Quando não podia mais estudar no ensino público, bateu numa escola particular e ofereceu trabalho em troca de estudos. E não parou…

Medo de trabalho nunca teve. E muito menos de nada. É alegre, sorridente e vive saltitando por aí com uma energia que ninguém entende, apesar das dores que sente aqui e acolá. É caridosa, doa o que tem e poucas coisas guarda para si própria. Se meu pai me ensinou retidão, ela me ensinou a amar sem medidas, sem preconceitos, a ser paixão, emoção e explosão! “A gente não leva nada dessa vida…” posso ouvi-la dizer…

Quando eu era criança, sábado era dia de faxina e de vitrola rolando com Roberto Carlos, Agepê e Nelson Golçaves (o mais odiado por nós, na ocasião). A minha tarefa sempre foi a de tirar o pó dos móveis, tarefa que detesto até hoje (por que será?). E como ela não tinha muitos vinis, as músicas se repetiam e acabaram virando clássicos na minha memória, que me fazem lembrar dela quando as escuto. A música “Mamãe” do Agnaldo Timóteo foi uma dessas músicas que se repetiu muito. Acho que ela a colocava repetitivamente numa tentativa de que a letra entrasse, de alguma forma, por osmose em nossa mente. Se foi a música do Agnaldo, eu não sei, mas que ela é definitivamente a dona de tudo e vale mais para mim que o céu, a terra e o mar, isso é!

“Ela é a dona de tudo,
Ela é a rainha do lar,
Ela vale mais para mim,
Que o céu, que a terra, que o mar,
Ela é a palavra mais linda,
Que um dia o poeta escreveu,
Ela é o tesouro que o pobre,
Das mãos do senhor recebeu,

Mamãe, mamãe, mamãe,
Tu és a razão dos meus dias,
Tu és feita de amor e esperança,
Ai, ai, mamãe,
Eu te lembro chinelo na mão,
O avental todo sujo de ovo,
Se eu pudesse,
Eu queria outra vez mamãe,
Começar tudo, tudo de novo”

Algumas das suas músicas preferidas para faxinar:

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